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The Pólis

O Partido Socialista (PS) apresentou no seu último congresso, através do secretário-geral e primeiro-ministro António Costa, propostas de apoio à natalidade e à juventude: nomeadamente o aumento das creches e incremento de benefícios no IRS Jovem.
Acontece que estas mesmas propostas já tinham sido apresentadas pelos seus rivais directos, o PSD, de Rui Rio, e uma delas o PS até votou contra (IRS Jovem).
Os socialistas que têm trabalhado na retórica de que o PSD é um partido sem ideias, sem capacidade para se apresentar como alternativa, arrisca e joga novamente com a memória curta dos portugueses. O PSD não tinha ideias, mas as poucas que tinha ao que parece era tão más que o PS não hesitou em anexá-las ao seu programa.
A surfar nas sondagens, a prometer mundos e fundos, António Costa pega num velho truque político para continuar a cilindrar o PSD - ficar-lhes com as proposta e fazer ouvidos de mercador aos gritos de "eu disse primeiro".

Daqui em diante, o PS defenderá que a proposta é sua e, quanto muito, dirá "se concordam e até dizem que já apresentaram, votem a favor" quando se der o momento de as apresentar no Parlamento.

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No CDS, acontece algo parecido. O presidente do partido, Francisco Rodrigues dos Santos, reagiu aos anúncios de António Costa, dado que a natalidade é um dos temas mais ligados ao partido desde sempre. Disse que eram "migalhas" e, segundo o Público está a preparar um pacote de medidas para apresentar, afetas à natalidade. Ora também aqui, houve um repescar. "Chicão" que tem, tal como os seus apoiantes, calcado na tecla de "o tempo da Assunção arruinou o CDS",  sabe-se já que inclui neste pacote que vai ser apresentado, uma boa dose de copy/paste das propostas anteriormente apresentadas por Cristas no Parlamento e chumbadas pela esquerda.

No entanto, o caso da réplica de propostas no CDS é muito menos grave, pois o que está dentro de casa é para consumo interno.

Os últimos dias têm sido muito produtivos em criação de notícias, artigos de opinião e reportagens em torno da nova era governativa que se iniciará nos Açores.
O arquipélago terá, finalmente, a oportunidade de experienciar outro estilo de governação tendo mesmo expulsado os comunistas das lides parlamentares da região - recorde-se que até o PPM ficou à frente deles.

Numa outra perspectiva, esta siuação tem gerado jogos de bastidores muito interessantes, para quem gosta. E é sobre eles que me debruço e acerca deles que terei de dar a mão à palmatória relativamente à qualidade de assessoria que o presidente do Chega hipoteticamente terá.

Ainda a procissão ia a meio, e com procissão falo nas conversações entre CDS, PPM e PSD, e já muito se discorria acerca desta pseudo geringonça invertida, porque teria de contar com aprovações no parlamento regional, de outros partidos para que tivesse pernas para andar. Falou-se na IL, no Chega e até no PAN.

Já esbracejavam os putativos arautos da liberdade à esquerda, dizendo que se ia governar com um partido de extrema direita. Como se aquilo que se tem passado no continente à 5 anos fosse muito melhor, com um Governo apoiado por partidos que celebram Che Guevara, Fidel Castro, Mao ou que põem em hipótese que a Coreia do Norte seja uma democracia.

Não acho que sirva de justificação para nada, apontar o mal que outros fazem. Mas é impossível ficar-se calado com tamanha hipocrisia.

Após o entendimento desta nova AD 2.0 , parece que se exigiu ao PSD regional que garantisse a aprovação dos orçamentos no parlamento regional. Para isso, o PSD tentou então conversar com a IL e com o Chega. E a partir da segunda conversa, com o partido de Ventura, é que o PSD nunca mais apanhou o fio à meada.

O CH desde então tem jogado com mestria, e assim que terminou a conversa com o PSD, lançou para a comunicação social a ideia de que se tinha firmado um acordo que incluia a redução do número de deputados, a castração química e uma possível extensão do acordo às autárquicas.

Fazendo lembrar o filme "Wag the Dog", o Chega marcou a agenda e minou a credibilidade do PSD. Costuma-se dizer para não lutarmos com porcos não é...?

O PSD viu-se obrigado a desmentir essas informações, mas o dano estava feito. O primeiro a gritar ouve-se mais pois o segundo já não conta com todos os ouvintes na sala.

Depois de dezenas de reacções nas redes, mais outra dezena de artigos de opinião e manchetes, Rui Rio veio tentar remediar o irremediável: a ideia de que fez um acordo com a extrema direita estava no ar.

Após tudo isto seguiram-se, para além do desmentido, algumas defesas usando a tal questão da geringonça continental. E Rui Rio, que tem um registo patético nas redes sociais, acha boa ideia brincar com o tema.
Ontem, mais uma vez, a assessoria de André Ventura, revelando muita perspicácia, esteve atenta ao que Rui Rio fazia e conseguiu gerar mais uma nódoa no peito do PSD.

O líder dos laranjas faz um tweet infeliz, perguntando se há novidades acerca do "avanço do fascismo nos Açores" e, cerca de uma hora depois, André Ventura escreve outro tweet exatamente sobre o mesmo.

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Resultado: Ventura puxa o PSD para junto de si, demonstrando consonância de pensamento e articulação conjunta na comunicação externa. Para quem leu ambos, fica com a ideia de que combinaram ou que são muito parecidos. De uma cajadada André Ventura conota o PSD com a extrema direita, para quem vê de um lado, e conota o Chega com o centro-direita, para quem vê do lado oposto.

Em pouco dias, o partido de André Ventura, talvez por o terem subestimado, fez gato sapato da reputação do PSD e ainda se serviu da comunicação social como bem quis.

Todo este lodo teria sido evitado de uma forma muito simples: PSD, CDS e PPM não precisavam de falar com ninguém para formar governo. Quem estava com eles estava do lado da direita, quem não estava colocava-se ao lado da esquerda. Este era o argumento único que devia ter sido utilizado, sem direito a conversações.


Sebastião Bugalho escreveu há uns dias um artigo de opinião no Observador, em que a ideia principal era a de que Rui Rio estava a cumprir escrupulosamente o seu plano, traçado algures na sua mente, para chegar à cadeira do poder. Nesse artigo, alude a um outro, de Francisco Assis. É sobre essa que escrevo.

Francisco Assis é um destacado militante do PS, que beneficia de uma admiração intelectual tanto à esquerda como à direita, e que no caso destes último, o consideram como o que seria o socialista ideal para se conversar - conversar no sentido de encontrar posições conjuntas com partidos à direita.
Não sei, nem tenho capacidade para tecer considerações acerca da inteligência do Francisco Assis.

O artigo, intitulado "Uma geringonça de direita", começa por parabenizar o livro "Linhas Direitas" (que reocmendo, já agora) por ser uma antologia do pensamento conservador e liberal português contemporâneo, de qualidade. Escreve o autor que  "(...)Vale a pena ler para se superar definitivamente a representação caricatural de uma direita obtusa que alguns sectores da extrema-esquerda procuram sistematicamente promover. ". Não podia concordar mais.

O que me impressionou no artigo, o qual desconhecia a existência, e que já é datado de fevereiro deste ano, foi a tese escrita a seguir. Francisco Assis colocou uma hipótese, que se alguma vez a mim me passou pela cabeça tal cenário, sempre o considerei uma divagação sem fundamento. No entanto, a realidade parece querer fazer-me engolir tal descrédito.


O ex-eurodeputado fala-nos da hipótese de Rui Rio querer efetivamente estabelecer pontes à direita, e replicar o que o PS fez à esquerda. Isto, se a estratégia de revelar que no fundo partilha muito mais valores com a esquerda do que com a direita ( e que o autor também acredita ser verdade) falhar. Diz Assis que "se não conseguir alcançar este objectivo o país continuará a contar com uma maioria de esquerda no Parlamento." e que como tal Rui Rio, terá de optar por outra via para alcançar o Governo.

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Essa via, não podendo ser pré-eleitoral, nas palavras do autor, apenas será tida em consideração depois de terminadas as eleições e contabilizado o peso de cada um. Francisco Assis considera que, se se verificar que toda a direita conjunta, mais o PSD, formarem conabilisticamente uma maioria, Rui Rio não hesitará em propôr um Governo apoiado pelo CDS, Iniciativa Liberal e Chega, replicando a ideia pioneira de António Costa.


Se esta ideia, em fevereiro, me parecia quase conspirativa, agora já não sei que diga. Assis chega mesmo a prever que o argumento que será utilizado então, quando acusarem o PSD de dar a mão à extrem-direita populista, passará por relembrar que "António Costa não hesitou em negociar com um partido que nunca condenou o totalitarismo soviético, que continua a falar da “alegada queda do Muro de Berlim” e que não esconde alguma simpatia pelo regime norte-coreano." .

Não só foi bem previsto, como até já acontece mais cedo que o pensávamos. O PSD já piscou o olho ao Chega, e há quem veja a possibilidade com bons olhos, correndo já nas redes imagens como a que ilustra este texto, ou posts escritos que consideram exatamente o mesmo.

Impressionou-me a capacidade de previsão de Francisco Assis, mas agora assusta-me que esta venha a ser uma realidade. O pior que poderia acontecer à Direita, e ao país, era acrescentar mais um radical a molhar os dedos no poder. Se, como diz o ex-eurodeputado, já existe uma representação caricatural da Direita em Portugal, aqui a caricatura passa a misturar-se com a realidade e perdemos de vez a esperança e a oportunidade de um dia termos uma Direita construtiva e democrática, à semelhança do Reino Unido ou da Alemanha, a contrabalancear com os socialistas.

Depois de algumas pérolas do deputado Rui Rio, a verberar contra a comunicação social e, mais recentemente, a negar a existência de racismo no nosso Portugal, o seu vice-presidente no partido tangerina, não se quis ficar atrás. Parece que a ponte 25 de abril deveria manter o seu antigo nome, homenageando Salazar. Opiniões são como os chapéus, não é?

Só me intrigo sobre o porquê de André Ventura ter saído do PSD. Afinal podia ter partilhado, tranquilamente, as suas ideias com os companheiros que ia certamente encontrar quem pensasse da mesma forma, em abundância.

Ou isto ou há uma estratégia de Rui Rio - sim eu acredito que ele é capaz de montar uma estratégia - para além daquela em que se tenta confundir com o PS para que as pessoas se enganem e votem nele, de tentar trazer de volta o André.
Mostrando-lhe que na sua antiga casa, há espaço para as suas ideias, talvez achem que ele feche a tenda da sua seita de evangélicos e volte atrás como um bom filho.

"Volta, André. Também não acreditamos em racismo, nem na comunicação social e temos um fraquinho pelo Salazar. Anda, filho."

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