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The Pólis

The Pólis

Impressionante e assustador

Sebastião Bugalho escreveu há uns dias um artigo de opinião no Observador, em que a ideia principal era a de que Rui Rio estava a cumprir escrupulosamente o seu plano, traçado algures na sua mente, para chegar à cadeira do poder. Nesse artigo, alude a um outro, de Francisco Assis. É sobre essa que escrevo.

Francisco Assis é um destacado militante do PS, que beneficia de uma admiração intelectual tanto à esquerda como à direita, e que no caso destes último, o consideram como o que seria o socialista ideal para se conversar - conversar no sentido de encontrar posições conjuntas com partidos à direita.
Não sei, nem tenho capacidade para tecer considerações acerca da inteligência do Francisco Assis.

O artigo, intitulado "Uma geringonça de direita", começa por parabenizar o livro "Linhas Direitas" (que reocmendo, já agora) por ser uma antologia do pensamento conservador e liberal português contemporâneo, de qualidade. Escreve o autor que  "(...)Vale a pena ler para se superar definitivamente a representação caricatural de uma direita obtusa que alguns sectores da extrema-esquerda procuram sistematicamente promover. ". Não podia concordar mais.

O que me impressionou no artigo, o qual desconhecia a existência, e que já é datado de fevereiro deste ano, foi a tese escrita a seguir. Francisco Assis colocou uma hipótese, que se alguma vez a mim me passou pela cabeça tal cenário, sempre o considerei uma divagação sem fundamento. No entanto, a realidade parece querer fazer-me engolir tal descrédito.


O ex-eurodeputado fala-nos da hipótese de Rui Rio querer efetivamente estabelecer pontes à direita, e replicar o que o PS fez à esquerda. Isto, se a estratégia de revelar que no fundo partilha muito mais valores com a esquerda do que com a direita ( e que o autor também acredita ser verdade) falhar. Diz Assis que "se não conseguir alcançar este objectivo o país continuará a contar com uma maioria de esquerda no Parlamento." e que como tal Rui Rio, terá de optar por outra via para alcançar o Governo.

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Essa via, não podendo ser pré-eleitoral, nas palavras do autor, apenas será tida em consideração depois de terminadas as eleições e contabilizado o peso de cada um. Francisco Assis considera que, se se verificar que toda a direita conjunta, mais o PSD, formarem conabilisticamente uma maioria, Rui Rio não hesitará em propôr um Governo apoiado pelo CDS, Iniciativa Liberal e Chega, replicando a ideia pioneira de António Costa.


Se esta ideia, em fevereiro, me parecia quase conspirativa, agora já não sei que diga. Assis chega mesmo a prever que o argumento que será utilizado então, quando acusarem o PSD de dar a mão à extrem-direita populista, passará por relembrar que "António Costa não hesitou em negociar com um partido que nunca condenou o totalitarismo soviético, que continua a falar da “alegada queda do Muro de Berlim” e que não esconde alguma simpatia pelo regime norte-coreano." .

Não só foi bem previsto, como até já acontece mais cedo que o pensávamos. O PSD já piscou o olho ao Chega, e há quem veja a possibilidade com bons olhos, correndo já nas redes imagens como a que ilustra este texto, ou posts escritos que consideram exatamente o mesmo.

Impressionou-me a capacidade de previsão de Francisco Assis, mas agora assusta-me que esta venha a ser uma realidade. O pior que poderia acontecer à Direita, e ao país, era acrescentar mais um radical a molhar os dedos no poder. Se, como diz o ex-eurodeputado, já existe uma representação caricatural da Direita em Portugal, aqui a caricatura passa a misturar-se com a realidade e perdemos de vez a esperança e a oportunidade de um dia termos uma Direita construtiva e democrática, à semelhança do Reino Unido ou da Alemanha, a contrabalancear com os socialistas.

O PSD ESTÁ EM LIQUIDAÇÃO TOTAL

Conheci nos meu tempos de 3º ciclo quando frequentava a explicação, um jovem mais velho que eu, que já estava provavelmente no 11º ou 12º ano. Vamos chamar-lhe Carlos.
O Carlos não tinha uma personalidade particularmente carismática, aliás até era bastante calado. Tinha um estilo que é normalmente chamado de "gótico" e era sobrinho da explicadora. Ela, já idosa, como não tinha netos via-o como um neto e partilhava connosco, de vez em quando, alguns factos sobre ele como as notas ou a relação supostamente engraçada que tinha com o avô. Foi nesse último tema - a relação com o avô - que até hoje retive um "fun fact" da altura, relativamente ao Carlos. Ele era fã de bandas de Metal bem pesadas, e colecionava discos vinil das bandas. Tendo em vista esse objetivo, o Carlos, segundo a minha explicadora, tinha desenvolvido uma estratégia para aumentar a coleção às custas do avô.
Sendo o senhor também um coleccionador de vinis, de outras bandas claro está, o Carlos aproveitava os aniversários do avô e o Natal, para lhe oferecer discos...de bandas de Metal.Como o avô não gostava daquele género musical, os discos acabavam por ficar para o Carlos. Assim o Carlos conseguia comprar mais discos para a sua coleção, usando como pretexto as prendas para o avô.

Porque é que me lembrei do Carlos? Porque ontem depois da confirmação de que o PSD e o PS iam aprovar a nova regularidade dos debates parlamentares com o Primeiro-Ministro (PM), surgiram muitas teses acerca do porquê de Rui Rio querer diminuir o número de vezes que o PM é obrigado a ir prestar contas ao plenário. Uma delas a de que o deputado está a preparar o terreno para quando for ele a ocupar o lugar de António Costa. Tal como o Carlos, Rui Rio estará a dar prendas a António Costa, porque acha que vai ficar com elas.


É uma tese que tem alguma graça porque se imagina Rui Rio a achar que vai ser Primeiro Ministro. Tendo mais a acreditar que quem equaciona esta hipótese acredita mais na ideia que o presidente do PSD vai ser PM, que o próprio visado na tese. No entanto, havendo a hipótese de que Rio ache mesmo que vai chegar a chefe de governo, tiro-lhe o chapéu pela ambição mas lamento informar de percorrendo o calvário da Oposição da maneira que o está a percorrer, ninguém lhe reconhece capacidade para ganhar umas eleições ao PS, nem que o António Costa desta vez consiga mesmo agarrar-se ao pescoço de um idoso mentiroso.
Mas há outro motivo que me leva a tirar-lhe o chapéu e que gostava de um dia ver esclarecido. A forma como anestesia toda a índole democrata e reformadora do partido que lidera. Como é que consegue convencer 78 deputados de um partido fundador da nossa democracia a concordarem com o fim dos debates quinzenais com Primeiro-Ministro. Ninguém se opõe, ninguém tem uma opinião divergente quanto "ao menos espetáculo e mais trabalho" do deputado Rui Rio? Ninguém se ofende com estas tiradas populistas ao nível do deputado do Chega?

Cúmulo dos cúmulos, conseguiu colocar o PSD a suplantar a ideia do PS e apresentar uma proposta ainda pior! É que enquanto o PS queria colocar o PM a debater de 2 em 2 meses, o PSD propôs que apenas se debatesse 4 vezes por ano...
Teve de ser o Partido Socialista a negociar e convencer o PSD a desistir dessa proposta e apoiar a dos 2 meses. Acabam por sair destas negociações como o partido mais sensato.
Quão de pernas para o ar tem de estar o nosso Parlamento para termos o partido de Governo a pedir para que se escrutine menos o Governo, mas não tão pouco como o principal partido da Oposição quer?

Li também hoje: "PS e PSD em mudar debates quinzenais". Não podia este título estar mais errado. Os isolados são todos os outros partidos que mesmo votando contra, não conseguem evitar este despejo de ácido sulfúrico sobre a nossa democracia. Os isolados somos todos nós que, chocados com esta promiscuidade entre PS e PSD, não podemos fazer nada para o evitar.


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Volta, André

Depois de algumas pérolas do deputado Rui Rio, a verberar contra a comunicação social e, mais recentemente, a negar a existência de racismo no nosso Portugal, o seu vice-presidente no partido tangerina, não se quis ficar atrás. Parece que a ponte 25 de abril deveria manter o seu antigo nome, homenageando Salazar. Opiniões são como os chapéus, não é?

Só me intrigo sobre o porquê de André Ventura ter saído do PSD. Afinal podia ter partilhado, tranquilamente, as suas ideias com os companheiros que ia certamente encontrar quem pensasse da mesma forma, em abundância.

Ou isto ou há uma estratégia de Rui Rio - sim eu acredito que ele é capaz de montar uma estratégia - para além daquela em que se tenta confundir com o PS para que as pessoas se enganem e votem nele, de tentar trazer de volta o André.
Mostrando-lhe que na sua antiga casa, há espaço para as suas ideias, talvez achem que ele feche a tenda da sua seita de evangélicos e volte atrás como um bom filho.

"Volta, André. Também não acreditamos em racismo, nem na comunicação social e temos um fraquinho pelo Salazar. Anda, filho."

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