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The Pólis

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  • Vitorino Silva

    O candidato com tino

    Numas eleições cada vez mais desprestigiadas como as Presidenciais, que lentamente se assemelham ao concurso Miss Mundo, em que os candidatos propõem tudo e nada, sendo que tudo são as propostas vagas que debitam cada vez que podem, e nada aquelas que sabem que estão fora do alcance de um presidente da República poder exectuar mas que decidem apresentar na mesma, há uma cara familiar que traz algum realismo à disputa.

    É mais que sabido que o vencedor é Marcelo Rebelo de Sousa, e por isso mesmo não desce do estatuto de MVP. Está reservado, como se faz em culinária. É só não estragar o que já tem.

    A cara familiar de que falo, é a de Vitorino Silva, mais conhecido como Tino de Rans. O candidato penafidelense consegue supreender sempre que volta a aparecer. Há 5 anos atrás surpreendeu no final, com um resultado muito acima do esperado. Surpeendeu tanto que o PCP apanhou um susto - etiveram a 30 mil votos de ser ultrapassados pelo calceteiro.

    Este ano, aparece mais experiente, com um discurso muito mais assertivo e repleta de mensagens por entre as suas parábolas e analogias. A importância de Vitorino Silva nas eleições de 2021, duplicou pelo contexto político em que se insere. Estamos na época do pós-verdade, em que para ser basta parecer, e a maioria dos challengers são isso mesmo, vendedores de banha da cobra. Especialmente os que se dizem "representantes do povo".

    É especificamente aí, que Vitorino e torna uma ameaça, pois só a sua presença desconstrói a narrativa deles. Se há um candidato que representa o povo ele é com certeza o cidadão que trabalha das 9 às 18, e que decide tentar a sua sorte como mais alta figura do Estado. O candidato que mais se assemelha ao povo é o que andou pelo país, no próprio carro, de norte a sul a recolher assinaturas, dormindo na casa de quem lhe oferecesse guarida.
    E melhor que estas frases para o explicar, são as 9 mil assinaturas que conseguiu, muito mais que as suficientes para uma candidatura e muito mais que as que foram apresentadas pelos candidatos empurrados por alguns partidos.

    Não há nem pode haver qualquer tipo de condescendência para com a candidatura de Tino de Rans. É um insulto se o houver. Por detrás daquele sorriso embutido num desmazelo próprio de quem trabalha no chão para nos dar chão, há hum homem intensamente esperançoso e perseverante, qualidades que só quem for desatento, não as reconhece como ingredientes principais de todos aqueles a quem chamam de "imortais". 

    São esse sorriso e essas qualidades que armam Vitorino Silva e não o deixam desistir ou sequer desmotivar perante as muitas adversidades que se lhe têm apresentado.
    Parte como o candidato com menor orçamento e como o mais subvalorizado pela opinião "que conta" para a comunicação social. Tão subvalorizado e menorizado que até há bem pouco tempo nem entrava nos questionários das empresas de sondagens. É assim que tratam os nossos.

    Tão desprezado e ridicularizado que nenhuma televisão o convidou para os debates com os restantes convidados. Só após muita pressão, lá fizeram o obséquio de o incluir.
    Para primeiro debate, talvez muitos tenham pensado que lhe calhou "a fava" - Vitorino Silva versus André Ventura. Quem ontem teve oportunidade de ver os trinta minutos de debate (pouquíssimo tempo, mas é assunto para outro texto), só pode ter visto que foi a André Ventura que calhou " fava".

    O calceteiro, frente a frente com o doutorado, não só não se intimidou como se fartou de enviar mensagens subtis tanto para o seu adversário, como para outros candidatos e partidos.
    Com um ar simpático, sotaque do norte e gesticulação de quem não está habituado a trabalhar de mãos vazias, Tino de Rans conseguiu atirar calhaus, sem receber troco, como:

    "Eu concordo com André Ventura, devia haver menos deputados. Por exemplo, sempre que algum faltasse, tomava-se nota e ao fim de umas faltas, o número reduzia"

    "Eu ouço dizer que o André falta muito, mas ele só falta porque ainda não tem ninguém para lhe ir marcar as presenças"

    "A rua é onde começa a casa de toda a gente."

    "Está a ser um debate porreiro. É assim que se deve fazer em democracia, sem interromper o outro."

    "Eu tive mais votos que o Chega e o Iniciativa Liberal juntos"

    Pelo meio, Vitorino Silva ainda conseguiu fazer uma parábola com uma mão cheia de pedras que apanhou em Peniche, falando nas pedras de todas as cores, e à resposta sobre se é de direita ou de esquerda respondeu que andar direito, "preciso de uma perna esquerda e de uma perna direita" a funcionar bem.
    Não fossêmos nós algo preconceituosos, e muito mais pérolas conseguiríamos ouvir por cada intervenção pública do Tino. Infelizmente, tem muito poucas porque as TV´s e os jornais não se interessam por um calceteiro.
    Ontem, um falso profeta do povo encontrou um político que realmente veio do povo e só não compreendeu as bocas que lhe foram mandadas porque se notou o desprezo que sentia a ouvir Vitorino Silva. É o chamado ouvir sem escutar. 

    Incrivelmente, mesmo após todas as dificuldades conhecidas e reconhecidas no debate, da promoção da candidatura do penafidelense, o jornalista que moderou o debate conseguiu gerir o tempo de forma a que Vitorino tivesse ficado com menos tempo usado. Não basta ser prejudicado desde o primeiro dia, ainda tem de ouvir um jornalista dizer "Vitorino Silva ficou com menos tempo, mas também não pode ser milimétrico". Neste caso, pode e por tudo o que lhe têm feito deve. Pois se há quem demonstra que cada milimetro é aproveitado ao máximo, é o Vitorino!

    Talvez por um milímetro desta vez os votos no Vitorino ou no Tino (como diz o candidato há quem queria votar num e há quem queira votar no outro) sejam suficientes para alcançar um lugar nos 5 primeiros.

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