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The Pólis

The Pólis

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    -Tão novo... e já se foi.
    - Sim mas agora deve estar a receber uma massagem.
    - Hã?
    - Esquece.


    O desabafo foi espontaneamente largado, sem ter atenção a que nem todos privaram o mesmo tempo com o falecido ao ponto de terem ouvido uma das suas mais divertidas divagações:

    "Se houver céu, espero que seja um sítio onde nos fazem uma massagem nas costas para o resto da eternidade."

    Portugal Digital 2021 - dados estatísticos

    Os dados de utilização digital dos portugueses, lançado pela Hootesuite

    A Hootesuite disponibilizou o anuário de dados estatísticos de Portugal, relativamente à utilização de internet e dispositivos TIC.

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    Encontrei dados muito curiosos, relativamente aos sites mais procurados ou as apps em que mais gastamos dinheiro (Tinder, por exemplo, está no Top 3).

    Para quem gosta de comunicação, redes sociais, tech e tem um "fetiche" por estatísticas, acedam ao slideshare aqui.

    Do lado direito encontram relatórios similares, para outros países!

    Outra plataforma que lançou conteúdo interessante, especialmente para quem gere redes sociais, foi a Social Bakers. Partilharam um calendário de efemérides que pode ser muito útil para planeamento de publicações ou simplesmente para alimentar a curiosidade e desbloquear conversas ;)

    Acedam ao calendário aqui

    O Streaming já enjoa

    Volta Pirataria

    Ainda me lembro de entrar num videoclube, ao fim-de-semana, com o meu pai, escolher um ou dois DVD´s para assistir em casa. Se entrei num no tempo do VHS, não me recordo.
    Mas gostava de ir, eram estabelecimentos cheios de cor graças às milhentas capas de filmes que os decoravam. Para uma criança era excelente.

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    Depois alguém aprendeu a "sacar os filmes" pela internet, lá em casa, e a visita ao videoclube acabou. A pirataria acabou por matar os videoclubes e, muito provavelmente, hoje em dia já ninguém compra um DVD, blu-ray ou VHS a não ser por revivalismo.

    Durante muitos anos convivi e usufrui desse modus operandi ilegal: a pirataria. Só mais tarde me vim a inteirar dos problemas em grande escala que isso representava para cinematografia. Eram bastante lógicos mas acho que a maioria das pessoas não pensa duas vezes quando lhe dão a oportunidade de usufruir de alguma coisa sem pagar.

    Surgiram então campanhas de sensibilização contra a pirataria, através da explicação dos seus efeitos mas também das consequências penais que podiam gerar para quem fosse cúmplice e não apenas para quem disponibilizava os filmes.

    Passaram-se alguns anos e chegou a Portugal a pirataria de filmes 2.0: sem recurso a dvd´s virgens ou pendrives USB. A pirataria em Streaming!
    Quem não se recorda do Wareztuga? Do Popcorn, TugaFlix e Mr.Piracy?

    Julgo que o primeiro a que acedi e do qual usufrui durante muito tempo foi o Wareztuga. Aspeto profissional, com milhares de filmes disponibilizados e prontos a ver na hora, legendados e a partir de vários servidores para o caso de algum não funcionar adequadamente.

    Tornámo-nos exigentes com a diversidade e penso que não é incorreto falar no plural se disser que no ato da escolha do filme a ver, começámos a pular de plataforma pirata em plataforma pirata à procura dos filmes mais recentes ou mais raros.

    Como seria de esperar, quem geria estes sites começou a querer mais do que a apenas disponibilizar cultura gratuitamente. Passou a ser necessário fazer um registo nos sites para se poder aceder aos filmes. Daí, saltamos para os anúncios e terminamos numa diabetes de anúncios interminável que nos fazia fechar 20 janelas de publicidade até conseguirmos finalmente carregar no "play" e disfrutar do filme eleito para o serão.

    Algumas das plataformas foram mais longe e começaram a pedir um pagamento anual ou mensal, à semelhança do que acontece hoje com uma Netflix, só quem em modo ilegal. Não sei se tiveram sucesso ou não, pois assim que isso acontecia eu abandonava o site para nunca mais voltar.

    Quando se anunciou que a Netflix estava brevemente a chegar a Portugal, coincidentemente começaram a desaparecer alguns sites piratas. Desconfiei na altura de que pudesse estar relacionado. Não acredito que a Netflix não saiba que também tem a concorrência do "mercado negro" e não me admirava que fizessem uma limpeza de terreno antes de aterrarem em novos mercados. Talvez uma oferta choruda de dinheiro aos gestores dos sites, talvez uma ajuda às autoridades a identificar os autores. Se alguém souber informe-me. Tenho curiosidade em saber se esteve relacionado ou não.

    Com o Wareztuga afastado e mais uns quantos sites piratas suspensos, a Netflix pousa em Portugal com toda a confiança e segurança. 30 dias grátis para novas contas. Não resisti, até porque tinha ficado sem alternativas, e criei conta. Foi uma desilusão. Muito pouco conteúdo e o pouco que tinha ou era da autoria da própria Netflix, que aos meus olhos ainda não tinha credibilidade suficiente para me merecer tempo, ou eram alguns filmes que qualquer pessoa já viu pelo menos uma vez na SIC ou na TVI. A única vantagem que na altuar identifiquei foi a de, aquando da visualização de uma série, não ter de avançar de episódio manualmente. O site avançava sozinho enquanto houvesse episódios para ver. Estava eu muito longe de saber que a prática tinha uma nomenclatura: Binge Watching.


    Durante algum tempo também nos era permitido "enganar" o site. Fazendo uso das maravilhas do MB Way, assim que terminavam os 30 dias de experiência, criava-se outra conta, outro cartão de data limitada a trinta dias et voilá, mais 1 mês "à pala". Provavelmente ninguém estava a enganar ninguém, e a plataforma de streaming americana estava a apenas a engordar a sua lista de contactos e dados, mas como bom português gostamos sempre da sensação que somos muito espertos. Se nos ficássemos pelos sites de filmes era bom, o problema é que aplicamos a chico-espertice como fórmula de sucesso para a vida. Enfim, outra conversa.

    Depois da Netflix desbravar o mato em Portugal, as suas concorrentes quiseram também entrar neste rectângulo à beira-mar plantado. Amazon Prime, Disney, Apple TV arrancaram há relativamente pouco tempo. Até a SIC já tem uma plataforma de Streaming!

    O que pareceu muito divertido e modernaço ao ínicio, acabou por se tornar um pesadelo. Imaginemos que quero ver "The Crown", tenho de criar uma conta e pagar na Netflix. Porém, se quiser ver "A Guerra dos Tronos" por exemplo, terei de criar uma outra conta na HBO e pagar. Terei de fazer o mesmo processo se quiser ver um filme ou série produzidos pela Disney. Criar conta e pagar à Disney. Para rever o programa do Ricardo Araújo Pereira, "Isto é Gozar com Quem Trabalha", toca de comprar um passe para a "Opto", a plataforma streaming da SIC.

    É como se entrasse num videoclube que está organizado por produtoras, e em que tenho de pagar cada vez que quero mudar de corredor. Simplesmente não compensa e é cansativo.
    Se criar conta em todos os sites de streaming disponíveis, de forma a conseguir aceder a todos os filmes e séries disponíveis, acabo com uma conta mensal parecida à da eletricidade ou de telecomunicações. Para não falar do processo de mudar de site...

    Numa alltura em que, mais que nunca, o nosso tempo e os nossos dados valem dinheiro, quando se diz que é o cliente que decide o que quer ver, os sites de visualização de filmes online estão a entupir o mercado e criar uma inflamação na minha paciência, e acredito que na de muitas outras pessoas.

    A ideia de pagar menos e ver mais subverteu-se. Fomos lentamente empurrados de volta para os videoclubes mas em formato digital. Mas para mim já chega. O que é demais enjoa e tanto streaming deixa-me com naúseas. Não quero pensar a quem pertence o filme Xpto e ter de pesquisar em qual das minhas contas é que o filme está disponível ou se tenho de subscrever e pagar uma nova. Quero ver, quero entreter-me, quero ususfruir dos filmes!

    O excesso de streaming empurrou-me de volta para os braços da pirataria. Olá de novo, meu caro Mr. Piracy. Desculpa ter-te deixado.

    É uma questão de forma ou de conteúdo?

    Nos últimos dias temo-nos deparado com as reacções, em catadupa, de indignação, choque e condenação da caçada que aconteceu na herdade da Torre Bela, na Azambuja.
    Também eu fiquei chocado com tamanha frieza de espírito, de quem tira 500 vidas e no final congratula-se, fotografando e filmando os cadáveres.

    Mas quanto mais a imagem circula e me aparece à frente, mais me faz pensar.
    Estamos horrorizados com o quê, especificamente? Com a quantidade de animais mortos? Com o motivo fútil para os matar? Com a expressão facil do casal protagonista da fotografia que anda a rodar por todos os ecrãs?

    Enquanto sociedade organizada e algo educada, temos consciência de que todos os dias são mortos milhares de animais, pelas mais diversas razões, e que somos consumidores dessas mortes. Seja no bife (vacas p.ex), seja nos laboratórios (macacos p.ex) ou simplesmente porque não suportamos a sua presença (ratos p.ex.). Acho que é seguro arriscar até nos milhões.

    Então até que ponto não é hipócrita a nossa indignação com a matança na Torre Bela? Será que não estamos apenas chocados por nos terem mostrado? "Olhos que não veêm, coração que não sente", certo?

    Mas não pode ser também apenas isso. Há imagens de animais mortos que não nos geram qualquer reacção de repugnação em cadeia.

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    Porque é que a primeira imagem é chocante e a segunda não?

    Acharemos nós que os pescadores não ficam felizes por conseguirem matar mil peixes num dia? É porque os peixes não vocalizam um som que se assemelhe à dor? O chapinhar em sufoco até morrer, não é suficiente?

    E se a imagem da Herdade da Torre Bela, não tivesse um casal sorridente e andasse a circular pela comunicação social com o título "Caçadores abatem 500 animais para doar a instituições de combate à fome" ?

    Não pretendo com isto fazer nenhum tipo de julgamento. Eu entendo que existe uma cadeia alimentar, que é cruel para as presas, e que somos os únicos predadores que podem ter noção disso. Para me confortar, prefiro pensar que na justificação para matar, considerando que se for para me alimentar, é justificado. Por divertimento, nem pensar.

    Mas gostava de compreender, porque sei que estes fenómenos de indignação com animais mortos acontecem regularmente, se nos indignamos com a forma (caçadores a sorrir junto aos cadavéres) ou com o conteúdo ( 500 animais mortos em poucas horas). 

    Será que estes fenómenos são, incoscientemente, uma forma de compensarmos todo o desprezo que damos a todos os restantes animais que são mortos em nome da nossa sociedade? Será aquele casal o bode expiatório ideal para limparmos a nossa consciência, ou andamos só sem nada para fazer?

    Bem-vindos ao mundo do LinkedIn

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    Bem vindos ao mundo encantado do LinkedIn
    onde há freelancers, managers e accounts
    heróis do recrutamento, recém diplomados e muitos gurus
    O mundo do empreendedorismo é no LinkedIn
    onde todos os estágios são magia
    desemprego, desemprego ele é
    aqui uma grande alegria!

    Sim, era uma tentativa de adaptação da música da Leopoldina para a realidade da rede social dos self-made men, LinkedIn,
    Todas as redes sociais criam bolhas, mas esta é a que mais me arrepia. Há todo um ambiente de positividade podre, como se entrássemos num bairro onde todos nos sorriem mas nós notamos que são sorrisos amarelos.

    Existem "influencers", que todos os dia publicam dicas para melhorar alguma coisa, desde a minha aparência ao modo como vejo a vida. Outros, wannabe influencers, enchem-lhes as caixas de comentários a agradecer e também eles a partilharem mais dicas! Isto, quando não carregam no pedal do narcisismo e acham que é boa ideia debitar toda a sua história, porque de algum modo se relaciona com o post (bocejo).

    Toda a gente usa blasers e camisas nas fotos onde aparecem. O uniforme universal do sucesso pessoal e profissional.

    Mas as publicações mais incríveis são as que se referem ao recrutamento e à procura de emprego. "Tu é que deves escolher o teu chefe!", perdão, queria dizer "líder!". É extasiante ler os episódios detalhados da High Quality Recruitment Manager da empresa All4Us, Sandra Ribeiro (inventei os nomes, calma) a descrever aquele dia em que respondeu a uma candidata, dizendo-lhe que não foi a seleccionada mas que não deve desistir, porque os sonhos devem ser perseguidos sob o mantra de que a esperança é a última a morrer. Quase a roçar aquelas desculpas para quando se pretende terminar um namoro e se diz "Não és tu sou eu. Não desistas do amor só porque te meti um par de palitos".
    E prossegue a Sandra dizendo que obteve uma resposta incrível da candidata rejeitada, que agradeceu efusivamente a magnanimidade de quem a rejeitou mas acenou antes de abalar, e que jurou que aquele email lhe deu ânimo para continuar a ser rejeitada, porque agora ela sabe que é esse o caminho para o sucesso. A Sandra acrescenta ainda que no dia anterior à publicação do post, a candidata rejeitada lhe enviou mais um email, desta feita a dizer que conseguiu um estágio não remunerado e que só o conseguiu graças à rejeição da Sandra...
    Claro que a nossa High Quality Recruitment Manager só termina o seu post com dicas sobre como rejeitar candidatos. Nunca ignorar e deixar mensagens de motivação são a chave!

    Depois o habitual enxorrilho de comentários de situações semelhantes ou de mais gente que foi rejeitada mas adorou a experiência.

    No LinkedIn procurar emprego é uma arte, um dom, que só alguns humanos possuem. Os outros têm de ler o livro que a Sandra Ribeiro escreveu sobre o tema, para conseguirem entender. Não basta tirar mestrado ou doutoramento meus meninos. Não basta saber línguas. Não, não... Têm de saber destacar-se!

    Segundo os peritos, já ninguém lê currículos. Aliás, já ninguém quer saber da vossa formação! O que interessa é saber destacar-se entre a multidão. O vosso "value" está na diferença.
    Vejam a Joaninha, tirou um mestrado na Nova mas está ali a dar no duro para conseguir o seu primeiro estágio não remunerado: fez um vídeo numa cadeira, onde dança e aponta para várias direções e, na ponta do dedo aparecem as suas séries favoritas intercaladas com uma ou outra informação sobre o seu percurso académico.
    Vejam o Pedrinho que fez um CV digital, com o template do Instagram, já tem mil "aplausos" no LinkedIn e imensos comentários de recrutadores a deixarem emails de empresas a que não pertencem!

    Ah, e o Manelito, ainda tem tanto para aprender! A publicar uma foto com o seu diploma, descrevendo-a "mais uma etapa concluída, agora estou oficialmente à procura de emprego!". Não não estás, Manelito. Estás à procura de uma experiência enriquecedora, produtiva, que te acrescente valor. Emprego é mais para a frente... Quando tiveres a idade do Filipe, CEO da Panipunda, que todos os dias partilha as suas melhores frases para inspirar Manelitos.

    O LinkedIn podia também ter uma mascote, como a Leopoldina. E devia ser o burro, do Shrek.

    O Bem Maior

    Desde José Rodrigues dos Santos a Marisa Matias

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    O conhecido pivô e escritor José Rodrigues dos Santos (JRS) foi, durante esta semana, o alvo preferencial dos justiceiros da linguagem, especialmente à esquerda. Numa entrevista que deu na Rtp, JRS cometeu o erro de não ser suficientemente explícito, de não fazer o gesto das aspas enquanto falava, e declarou:
    “A certa altura, há alguém que diz: – Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?”, referindo-se claro, a uma das práticas mais horrendas do Holocausto.

    Gerou-se o pânicos, e multiplicaram-se as partilhas, as condenações e as injúrias. Até deputados sentiram necessidade de expressar publicamente o seu repúdio pelo que tinha dito o escritor.

    Afinal tínhamos durante anos recebido as notícias através de alguém que achava que as câmaras de gás foram uma forma humana de assassinar pessoas. Para JRS a sentença estava lida: é um apologista do nazismo dos tempos modernos.

    É assim que funcionam as grandes intelectualidades da esquerda. Mas é mesmo, ou há uma intenção em não querer contextualizar?

    José Rodrigues dos Santos viu-se obrigado a defender-se e, com rigor e seriedade, fê-lo no campo de batalha onde é possível sermos derrotados sem nos apercebermos: o Facebook.

    Ao que parece, e na verdade era o mais lógico e sensato, pasme-se, ele afinal não estava a dar a sua opinião sobre as câmaras de gás! O que JRS, no excerto de vídeo que circulou um pouco por todo o lado, quis fazer foi explicar de forma simples o que dezenas de documentos e contactos que efetuou para sustentar o que escreve, lhe diziam acerca da prática e causa.

    Como disse Michael Seufert na sua página de Twitter, não se conseguem convencer milhões de pessoas a seguir o que defendemos, se defendermos o mal. O que se fez há época foi aparentar fazer o bem - dar uma justificação humanista para as câmaras de gás - para conseguir colocar uma pessoa normal a perpetrar o mal.

    Isto não é assim tão difícil de entender. Só que para os partidários da esquerda, para bloquistas e comunistas, não há vontade de entender, e os que entendem, sabem que não é conveniente assumi-lo.

    Para algumas destas pessoas, a banalização do mal passa por banalizar o mal, quando na verdade se trata de ter gente banal a praticá-lo, em nome de um "Bem Maior". É mais confortável inventar escapatórias morais para quando fazemos algo que sabemos estar errado. Se quisermos ver a uma escala muito pequena, lembremo-nos das "mentiras piedosas".

    O problema é que para as gentes do Bloco e do PCP, há também um "Bem Maior" a seguir, que é o de caricaturar, demonizar e ostracizar quem tenha um pensamento dissonante com aquilo que defendem. O caminho para esse Bem Maior não passa necessariamente pela verdade, e por isso é tão fácil ignorar factos em detrimento de um julgamento público, de apelo ao senso comum.

    É até curioso que este diferendo tenha ocorrido no mesmo contexto temporal em que o slogan de campanha de Marisa Matias seja "Força Maior".
    A Força Maior da Marisa passa por chegar onde tiver que chegar, independentemente da verdade ou da mentira.

    É esta Força que a leva a dizer que é socialista, e mais tarde na televisão intitula-se de social-democrata.

    É esta Força que a põe a jogar com meias verdades, como dizer que os hospitais privados recusaram tratar grávidas porque tinham covid - ela sabe que os hospitais privados até há bem pouco tempo, por ordem da DGS, não podiam tratar doentes covid. Fossem grávidas ou não.

    É esta Força Maior que a impede de admitir que demora mais tempo, é mais caro e logisticamente ineficaz, estar a contratar mais médicos e enfermeiros a meio de uma pandemia, em vez de recorrer aos hospitais privados para tratar doentes - os hospitais públicos não vão aumentar de tamanho nem vão conseguir fazer as consultas e exames em atraso, por contratarem mais médicos e enfermeiros agora. A Força Maior impede Marisa Matias de admitir que tem preconceitos ideológicos com a iniciativa privada, e que esses preconceitos têm custado vidas.

    A Força Maior da Marisa, é a mesma de toda a Esquerda: os fins justificam sempre os meios, sejam eles a mentira, a calúnia, a repressão ou a morte.

     

    Praxes

    e as vantagens da pandemia

    Este ano, como consequência do estado pandémico em que vivemos, no ínicio do ano letivo do ensino superior surgiram várias notícias de que as praxes seriam suspensas, como forma de não se correr riscos de incumprimento das normas da DGS.


    Não sei se o foram em todo o lado ou não, ou se suspenderam ou modificaram apenas algumas atividades. É impossível aferir a veracidade destas afirmações, pois antes da pandemia tanto as instituições de ensino superior (IES), tanto os estudantes, mentiram e arranjaram estratagemas para que as praxes decorressem mas de forma a que os reitores e presidentes pudessem, caso necessário, aparecer nas notícias de "mãos limpas". Sempre houve um elevado nível de hipocrisia para defender uma atividade sem nexo.

    Mas partindo do princípio de que somos todos muito honestos e portanto é mesmo verdade que foram suspensas, só tenho a dizer : sorte a dos novos estudantes!

    Não me considero anti-praxe, como gostam as associações académicas e comissões de praxe catalogar, pois nunca fiz nenhuma apologia junto de nenhum colega para que deixasse a praxe, quando frequentei o ensino superior. Mas sempre tive a minha opinião quando me perguntavam, e não é favorável.

    Parte logo da retórica de "nós vs eles" que se incute nos caloiros, sendo que "nós" são os que alinham nas praxes e supostamente têm mais "espírito académico" (ainda não se sabe muito bem o que isto é), e o "eles" que são todos os que não alinham e portanto são automaticamente rotulados de anti, chegando-se ao rídiculo de se lhes querer vedar o uso do traje académico - cada vez mais traje de praxe.

    A partir daí, é sempre a descer. São dadas as justificações mais patéticas possíveis para defenderem o triste regabofe. O que mais gosto é o das "pessoas incríveis" que se conhecem na praxe, evocando um suposto estreitamento de laços que acontece algures entre o ovo na cabeça e o rebolar no chão. A maioria das pessoas que chega ao ensino superior teve, no mínimo, de fazer 12 anos de escolaridade. Se nunca precisou de dar cambalhotas para fazer amigos, conhcer "pessoas incríveis" e integrar-se, duvido imenso que precise de o fazer quando chega ou está a chegar à maioridade.


    Veem-se estudantes a dar ordens a outros estudantes, submetendo-os a uma hierarquia onde quem mais chumba mais importante é. Desde o Meco, que gostam sempre de dizer várias vezes que "Só faz quem quer", colocando o ónus da decisão no caloiro, muitas vezes de 17 anos, que acabou de chegar ao ensino superior e recebe toda uma lavagem sobre os efeitos nocivos de não fazer a praxe - não usar o traje, não viver o "espírito académico", não ficar integrado na turma e, como diz em alguns manuais de praxe, não participar nas atividades académicas. Mas a escolha é simples, só fazem porque querem...

    Os que a fizeram, não suportam a ideia de que novos estudantes possam usufruir de tudo, em especial do traje, sem cumprir a "recruta", e muitos esforçam-se para que seja uma recruta memorável, muitas vezes pelos piores motivos.

    Outro argumento é o da tradição académica ou espírito académico. A tradição cai por terra, especialmente quando falamos em politécnicos e universidades privadas. Não é tradição, é imitação.
    O espírito académico, ninguém sabe muito bem definir o que é, mas a única coisa que a praxe tem de académico é ser feita (e às vezes nem isso) no mesmo espaço físico da academia. Mas por essa lógica de ideias, almoçar no refeitório é uma atividade de cariz académico. O tal espírito, dizem que se prende com a entreajuda e a animação. Ou seja, algo que se encontra em qualquer grupo, mas aqui é feito com pessoas vestidas de preto.

    Os estudantes que praxam nunca sabem justificar decentemente porque é que se submetem a ordens rídiculas, que muitas vezes implicam esforço físico e falta de higiene. Quando os argumentos são atirados por terra, um a um, carregam no botão "não fizeste, não percebes".
    Eles é que ainda não se aperceberam que colaboram com uma alegada tradição de alívio de frustrações, que é patrocinada por N marcas, e que esses sim são os grandes interessados em manter as praxes.

    Acabem com as praxes e os seus rituais inventados, com as tradições saídas da cabeça de um grupo de estudantes bebâdos há uns anos atrás, e há muita gente que perde dinheiro. Por isso é que é tão importante que se mantenha vivo espírito académico, pela saúde das contas bancárias de associações, lojas de trajes, de cervejarias e demais materiais, alguns que trabalham especificamente só nesse âmbito.

    Se os novos estudantes não fizerem as praxes, ainda bem para eles. Não perdem nada.

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    Luís Filipe Vieira

    Um amigo fez-me chegar um vídeo muito interessante. Não a parte do Big Brother, mas a parte dedicada a Luís Filipe Vieira (mais ou menos ao minuto 8). É um pequeno apanhado que nos permite perceber melhor o tipo de pessoa que tantos políticos gostam de orbitar à volta, desde o primeiro-ministro ao líder do Chega.

    Vale a pena ver :

     

    Os benefícios do bullying na sua vida :D

    Antes do bullying virtual, o Diogo postou isto:

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    O Diogo deve ser daqueles "self made man", que começaram o seu negócio de raiz, com um empréstimo a fundo perdido, da avó, de 50 mil euros. E acha que tem de dizer aos outros como é que devem viver.

    Alguém partilhou este miserável post, o bullying virtual fez a sua magia et voilá:

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    Temos um Diogo politicamente correcto, que provavelmente pensa o mesmo mas viu-se obrigado a escrever isto, porque o textozinho ridículo que escreveu antes teve mais engagement do que ele alguma vez pensou que teria.

    Um final parcialmente feliz.

    Em quem é que o Ministro se inspira para negociar tão bem

    O Ministro das Infraestruturas gaba-se de saber fazer grandes negócios, já descobri o seu segredo.

    Pedro Nuno Santos, Ministro das infraestruturas, dizia há pouco mais de um mês que Portugal poderia ensinar os outros a fazer bons negócios, referindo-se especificamente ao caso da compra de carruagens da CP. "Ainda bem", depreenderia o leitor mais distraído.
    Estas tais carruagens e consequentemente este excelente negócio, vieram esta semana a público. E não pelos melhores motivos. Parece que o excelente negócio foi comprar carruagens à vizinha Espanha, que as tinha paradas por conterem amianto...

    O Ministro tinha toda a razão em achar que foi um excelente negócio. Para os espanhóis.

    Assim, depois de uma intensiva pesquisa, descobri quem são os seus gurus da negociação. Em que é que se inspirou Pedro Nuno Santos para negociar tão bem? A resposta está neste vídeo:

     

    "Inside The World´s Toughest Prisons"

    As prisões mais duras do planeta

    Inside The World´s Toughest Prisons é uma série documental, adquirida pela Netflix, que nos leva para dentro das prisões ditas mais perigosas do mundo.
    A série original foi lançada no Channel 5, do Reino Unido, em 2016 e era apresentado pelo jornalista Paul Connolly. Aqui, não sei o motivo mas contou apenas com a temporada inicial de 4 episódios.

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    Dois anos depois, a Netflix, como já é hábito, repescou o programa e lançou-o na sua plataforma de streaming, onde já conta com mais 3 temporadas. O mote permanece o mesmo, entrar nas prisões mais complicadas do mundo, mas agora através do jornalista Raphael Rowe, também ele um ex-condenado no Reino Unido - por um crime que não cometeu - e que esteve encarcerado numa prisão de alta segurança durante 12 anos.

    O registo é diferente, não transmitindo tanto a ideia de que estamos a ver um documentário clássico, e para isso foram alterados pequenos pormenores que se revelam determinantes para o efeito. Destaco a não dublagem dos testemunhos dos prisioneiros como um deles, deixo os restantes para quem queira ver a série, descobrir.


    Por desatenção minha, que é bastante recorrente, comecei a série de trás para a frente. Isto é, comecei na 4ª temporada e já apresentado por Raphael. Não tem qualquer problema, pois cada episódio conta a estória de uma prisão, não tendo qualquer influência o que se passou em outro episódios. No entanto, devo dizer que chegando à 1ª temporada, há um grande choque de estilos e que prefiro bastante o da Netflix.

    Feita esta longuíssima contextualização da série, partilho um pouco do que vi, mais concretamente dois episódios, ou seja, duas prisões. que me mereceram alguma reflexão. Trata-se do Estabelecimento Prisional de Tacumbu, no Paraguai e do Estabelecimento Prisional de Melrose, nas ilhas Maurícias.
    Dois países completamente diferentes, duas formas de lidar com criminosos opostas, mas a mesma dureza na vida de todos os prisioneiros, na luta pela sobrevivência.

    Das duas, vi primeiro o episódio referente à prisão no Paraguai. É nos apresentada como uma prisão altamente sobrelotada, em que os guardas não chegam à meia centena, para mais de mil prisioneiros. As primeiras imagens são de uma miséria extrema, só descritível como as piores ideias que consigam imaginar de uma das piores favelas que tenham conhecimento existir. Um pátio, repleto de gente com roupa rasgada ou completamente desajustada em termos de tamanho, a drogar-se sem qualquer pudor ou discrição. Todos dormem no chão, marcando o seu lugar no pátio. Autênticos sem-abrigo dentro de uma prisão.

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    Mas o apresentador é encaminhado para uma outra seccção e apresentado ao prisioneiro que está encarregue de a gerir (!!). O edifício em questão é uma bolha dentro da prisão, já com camas, casas de banho e algumas atividades de trabalho. O mínimo comum em qualquer prisão. Quem é que vai para esta secção? Quem se compromete em seguir as regras impostas pelo seu proprietário: a Igreja Católica. Os prisioneiros que queriam aceder aos "privilégios" deste bloco, e dormir numa cama, não podem ter vícios, não podem protagonizar qualquer ação de violência e têm obrigatoriamente de assitir à missa. Estas foram algumas das regras apresentadas, não ficamos a saber se existem mais.


    Após a visita a esta parte da prisão, Raphael volta à "zona de calamidade", onde somos confrontados com algo que, pelo menos eu nunca tinha visto. Entra na prisão uma espécie de carroça, carregada com lixo doméstico, que é despejada numa parte do pátio. Este lixo, pelo relato de um dos presidiários com quem o jornalista conversa, é ali despejado para que os presos daquela zona possam remexer e procurar comida e outros objetos que considerem de valor. A felicidade com que o recluso amealhava fruta podre era surreal, no entanto revelou ao programa que era ótima para vender dentro da prisão. Acho que isto já passa uma ideia do que ali se vive.

    Quando estamos a digerir toda esta informação, todo este degredo humano dentro de uma instituição prisional, eis que nos mostram uma terceira zona da prisão.

    Se considerarmos que o pátio onde se drogavam, agrediam e catavam lixo era o patamar zero, da condição de sobrevivência da prisão, e se dentro dessa catalogação pudermos ver o bloco patrocinado pela Igreja, como o patamar a seguir, em que já são fornecidos alguns mínimos, então o seguinte será um três que parece quase um quatro. Mas adiante com esta coisa dos números.

    O que se vê a seguir é um autêntico mercado, que nos remete para qualquer outro que já vimos na televisão ( para quem não viajou até ao local, claro), em países como a Tailândia ou algo do género. Escuro, com imensas bancas dos mais diversos produtos. O mais incrível é que, dado o desgoverno daquela prisão, isto significa que todos os objetos e mais alguns, conseguem entrar na prisão. Foi nos mostrado desde uma banca de croissants até uma de reparação de computadores e até outra de aluguer de quartos!

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    Basicamente aquela zona da prisão era uma mini-sociedade, onde se adquiriam todos os serviços como se se estivesse no exterior, e onde era possível fazer tanto ou mais dinheiro que no "Mundo real". Foi francamente surpreendente, pela negativa e pela positiva. Se por um lado é bom que haja uma mudança na vida daquelas pessoas, e que possam experimentar uma simulação de vida normal, por outro não é suposto e é altamente perigoso para os poucos guardas naquela instituição.

    A segunda prisão que, para mim, merece destaque é a de Melrose, como já tinha escrito no início (não bem no início) do texto.
    Estão a ver as ideias que temos de uma prisão de alta segurança, ou de prisioneiros de alto risco, em continentes que não a Europa e os EUA? Prisioneiros assustadores, gangues, infraestruturas intimidadoras? Assim mais perto do que foi descrito na prisão do Paraguai, mas com camas para todos.

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    A prisão de Melrose é o oposto. O próprio apresentador, quando chega ao estabelecimento prisional constata imediatamente algo que nunca tinha sentido: Silêncio numa prisão.
     Esta constatação tem mais importância se nos relembarmos que Raphael Rowe é, para além de jornalista, ex-recluso numa prisão de alta segurança.


    Após este primeiro impacto, há uma segunda evidência com a qual o nosso anfitrião se surpreende, que a limpeza do local. A prisão tem um aspecto asseadíssimo, sem um papel no chão ou uma erva daninha a teimar que também quer ser presa.


     É nos então feita uma breve contextualização acerca da história da prisão. Ao que consta, era um estabelecimento bastante problemático e que gerava bastante interesse mediático por esse mesmo motivo. Ora não sendo as Ilhas Maurícias conhecidas pela sua produção seja do que for, não foge ao clichê de muitas outras ilhas e como tal vive quase exclusivamente do turismo. A seguir a uma catástrofe natural ou uma guerra, a criminalidade e a reputação de local com alta criminalidade devem ser o terceiro principal espanta-turistas de qualquer país.

    O governo das Ilhas Maurícias deliberou então que deveria resolver o problema rapidamente, e para isso optou por nomear um novo comissário para gerir o Estabelecimento Prisional de Melrose e reforçar-lhe os poderes, tornando-se praticamente num comissário absoluto.
    Esta decisão mudou tudo e a prisão é atualmente gerida com mão de ferro. No pátio, os reclusos não falam, ou falam muito baixo, quase a sussurrar. 


    Os cigarros foram proibidos de um dia para o outro, e bem se sabe como os cigarros são a "moeda" de qualquer prisão. Raphael consegue chegar à fala com pelo menos dois prisioneiros, um originário da Ilha e outro Europeu. Pergunta ao primeiro, porque é se sente uma tensão tão grande no ar, e este responde-lhe com um sorriso nervoso. O segundo, europeu, sempre com uma expressão facial de quem não se deixou quebrar apesar de agir de acordo com o que os guardas pretendem, queixa-se da questão dos cigarros e diz que o que se passa na prisão "é política".

    À semelhança de qualquer poutro estabelecimento prisional, Melrose também tem espaços de trabalho para os prisioneiros. A especialidade é a fabricação de sapatos. Mas desengane-se quem acha que o trabalho é remunerado, pois não só não é, como os sapatos são feitos apenas para os guardas. Uma outra unidade de trabalho, na qual o recluso europeu trabalha, produz peças de metal para serem utilizadas no estabelecimento - quase que produz as suas próprias grades.

    Há uma constante "aura", se assim pudermos chamar, de repressão dentro de Melrose. Uma paz podre. Obviamente que não estou com isto a dizer que uma prisão deveria ser um lugar de liberdade e felicidade.


    A Direção do estabelecimento no entanto, parece ter alguma noção de que apesar de ter as coisas sob controlo, pode estar a provocar uma situação de efeito "panela de pressão", mas não querendo aliviar nas suas medidas para não ceder, optou por introduzir algo também bastante invulgar.
    Pelo que foi dito no episódio, ainda era uma prática recente, restrita a um pequeno número de presidiários, mas que surte efeitos positivos no comportamento destes: são aulas de Tai Chi. A dado momento temos a caricata imagem de um grupo de criminosos a praticar lenta e calmamente, com um sincronismo asiático, os movimentos desta arte marcial.
    O professor assegura que tem recebido o feeback positivo dos alunos.

    Estes dois sistemas completamente opostos, deram-me que pensar e remeteram-me para uma comparação económica ou política, consoante prefiram.
    Diria que o sistema do Paraguai, se assemelha ao sistema capitalista democrático:
    Há um claro fosso entre quem vive com dignidade(a possível dentro da prisão) e quem não vive. E há quem esteja no meio. A dificuldade para mudar de estágio é muito alta, especialmente neste ambiente, mas possível. 
    Há gente muito infeliz e perdida, mas quem esteja tão bem que nem quer sair. E sobretudo, sem intervenção dos guardas, houve capacidade de organização e para se estabelecerem regras e comércio. Há primeiro vista, é feio? Parece muito mais inseguro? Parece. Mas também me parece mais realista.

    O sistema das Ilhas Maurícias, para mim apresenta muitas semelhanças a um sistema ditatorial:
    Um local impecavelmente bem tratado, sem incidentes, com prisioneiros disciplinados e bem comportados. Trabalham, cooperam e cumprem as suas sentenças em harmonia. Todo um clima de consenso que soa a utopia, tal e qual uma ditadura. Num regime autoritário tudo aparenta correr às mil maravilhas, até descobrirmos como no caso de Melrose, que as refeições são sempre pão e água ou que um prisioneiro que seja apanhado com 1 cigarro tem direito a 16 dias na solitária (com as condições previamente mencionadas).
    Não é normal tanto consenso, tanta harmonia. Não é normal que ninguém conteste nada, não questione nada ou que nunca tenha um acesso de fúria.
      Parece muito mais organizado? Sim. Parece bem mais seguro? Também. Mas completamente irrealista e sufocante.

    Colocando-me no lugar de um prisioneiro, e tendo apenas como opção estas duas prisões, tenho que admitir que pela minha segurança talvez preferisse ir para as Ilhas Maurícias, mas pela minha sanidade mental teria de optar pelo Paraguai.

     

    Se acha que o RSI é assim tão bom, despeça-se

    Este fim-de-semana surgiu nos media, a proposta do Chega de aumentar a fiscalização a quem recebe o Rendimento Social de Inserção (RSI) e obrigar os beneficiários a exercer serviço comunitário.
    Apesar da proposta não ser totalmente nova, no meu pouco tempo de observação nas redes sociais pude constatar dezenas de reacções. E são algo surpreendentes.

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    Não tinha a noção que tanta gente inveja o RSI ou considera que quem o recebe é um malandro que se quer aproveitar do sistema. É claro que esta proposta, vindo do partido que vem, é apenas um prolongamento natural da sua agenda de assimilação dos ciganos, utilizando um ideia de senso-comum de que todos eles recebem RSI, mantendo paralelamente os seus negócios de comércio ambulante.
    Não tenho conhecimento sobre estatísticas onde se tenha aferido tal comportamento, por parte desta comunidade em particular, no entanto fiquei surpreendido com a aparente positividade com que foi recebida a proposta. Ao que parece, através dos comentários que fui lendo, a minha "sondagem" pessoal, indica que há toda uma franja populacional que considera que se tem de fiscalizar mais estas pessoas que recebem centena e meia de euros do Estado, e exigir-lhes trabalho para merecerem o que recebem...


    Estas propostas claramente fazem vir ao de cima o portuguesinho mesquinho, que inveja sempre a galinha do vizinho, ainda que esta seja um pinto enfezado. Pergunto-me é, se há tanta gente que acha que receber o RSI é ter "boa vida", porque é que não se despedem e pedem-no também?

    Outro pormenor, ou pormaior se me perguntarem, é o facto de a proposta vir do partido cujo líder proclama deitar abaixo o sistema, destruir a corrupção e "fazer das tormentas boa esperança". Ora ligando estas suas vontades, por exemplo, a esta proposta, a coisa parece-me contraditória e algo caricata.

    Apresenta-se então o grande destruidor da corrupção, que faz tremer o PS e os interesses instalados... e começa pelos desempregados! Não vão estas pessoas, esta cambada de sanguessugas querer aproveitar-se do sistema para receber 200€, o salvador André já está no seu encalce.

    Os outros, os grandes, os Ricardos, os Joes e os Escárnias, ficam para o fim. Afinal até o povo concorda não é verdade? Não hão de dizer que somos mansos...

    Racismo, o derby voltou.

    Um homem matou outro em Moscavide. Um homem idoso matou um outro homem jovem em Moscavide. Um homem idoso e branco matou um homem jovem e preto.

    Escolha a frase que melhor lhe convier.

    Infelizmente, pelo ambiente mundial, americanizado, que se vive afastomo-nos sempre do essencial para discutir o acessório. Eu escolho a primeira frase, porque considero ser a correta. Seja qual for a motivação, um homicídio é um homicídio. O que se tenta fazer dele a seguir, é só a amostra da putrefacção que se vive na política.

    A discussão patética do "Portugal é Racista" vs "Portugal não é racista", está de volta, e os extremos políticos já a recebem de bom grado.
    Eu não sei se Portugal tem um racismo institucional ou não, mas sei que Portugal não tem níveis de racismo comparáveis com aquele que querem fazer crer que temos. Não, os pretos não temem andar na rua, nem temem imediatamente pela vida quando abordados pela polícia. Isto não são os Estados Unidos da América.
    Por incrível que pareça, os pioneiros a  importar polémicas americanas para cá, são os mesmos que fazem bandeira, a luta contra o americanismo por representar o climax do capitalismo - falo do Bloco de Esquerda.

    O Racismo só não existe onde não exista gente. Deve ser repudiado e criminalizado. Mais que isso tem o efeito inverso: acicata-o. Ter um partido a dizer constantemtente que vivemos num país de brancos contra pretos, vai provocar a existência de um partido que diga o oposto. Até há bem pouco tempo só contávamos com um, agora já contamos com o segundo. O Chega, na sua senda de dar nas vistas, já chamou a si o papel de contraria a esquerda em tudo, nem que para isso tenha de dizer as maiores barbaridades.
    Portanto, descemos ao nível em que temos o BE a dizer que há gente que considera não haver racismo em Portugal, e o Chega a dizer que há quem considere que tudo é racismo.

    Isto não serve de nada, nem ajuda em nada. Só piora, só divide, só alimenta e cria hostilidades desnecessárias entre portugueses. Estes dois partidos são o espelho um do outro, e aproveitam tragédias para promoverem as suas agendas.

    Eu continuarei a fazer o possível por evitar esta dicotomia tola. Acho que é de bom senso, perceber que há gente decente e gente indecente em todo o lado. Nem somos todos santos, nem todos pecadores.

    O importante é que se faça justiça, e que o homem que matou outro homem seja punido.

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    Limpar os pés na cara de quem estuda

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    Não ofender, tem sido o mote nos últimos tempos para proibir, apagar, recuar, evitar em inúmeras situações. Umas vezes por iniciativa estatal, outras de índole privada e até de cariz pessoal. Também tem originado acérrima discussão entre os que defendem o direito a ofender e os que têm uma lista interminável de situações que consideram ofensivas.


    A TVI, e especificamente o reality-show Big Brother, têm (não sabemos se oportunisticamente ou não) surfado esta onda com grande destaque. O programa tem apostado em evitar situações ofensivas, ao sabor do que se vai escrevendo nas redes sociais. Violência físíca e verbal, expressões discriminatórias, bullying entre outros, têm sido veementemente repudiados e reprimidos pela organização do programa. Por vezes díscutivel, mas na generalidade bem apontado. Ainda que acabe por tornar um programa que, já por si é bastante censório, num quadrado bastante reduto, de liberdade. Não espelha de todo o que é a vida "cá fora", como é apanágio dos promotores do formato, dizerem.
    Durante o fim-de-semana, parece que uma ex-concorrente do programa, Sónia Jesus, se estreou numa nova via profissional: Repórter. A novidade acabou por colidir com alguma indignação, muítissimo moderada, nas redes sociais. Não é que não se esteja habituado a ter incompetentes a trabalhar na televisão, ou a ver promovida, gente sem qualquer formação para o que faz. Mas cada vez custa mais.


    A TVI que se tem preocupado tanto em não ofender, não terá ninguém na Direção que veja o quão ofensivo é catapultar uma ex-concorrente de reality show dos mercados, diretamente para o lugar de repórter?
    Há milhares de jovens, todos os anos a ingressar em cursos de jornalismo, comunicação social, ciências da comunicação e que na maioria dos casos nunca vêem retorno para o investimento pessoal e financeiro que fizeram. É justo que fiquem em casa a depararem-se com uma Sónia a exercer algo para o qual não tem absolutmente mérito nenhum?
    Serão os diretores de programas da TVI assim tão desprovidos de ética e brio profissional, que não se importam de negligenciar a prórpia área em prol de audiências?

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    É caricato que este tipo de desrespeito pelos estudantes e pelos pais dos estudantes, não seja tido em conta como "conteúdo ofensivo". Os pais ficam confortáveis a ver que andam a financiar cursos aos filhos para chegarem estas pessoas e passarem à frente?
    Os coordenadores de cursos superiores de comunicação não têm nada a dizer? As Instituições de Ensino Superior onde são leccionadas estas àreas, não se importam com a desvalorização que isto significa para os cursos?
    Esta é mais uma daquelas situações que não se vê noutra profissão. Porque mais uma vez fica patente, que se olha para os profissionais da comunicação como palhaços de circo. Não se ousaria colocar um qualquer a fazer de advogado, engenheiro ou gestor. Mas aqui, quem entreter melhor passa à frente de quem se esforça e dedica uma parte da sua vida a estudar para exercer a profissão.

     

    Brinquem com o vosso trabalho, não com o meu

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    Ontem, durante um directo da CMTV, o repórter Paulo Jorge Duarte foi atirado a uma piscina por alegados membros da claque Super Dragões. O seu colega pivot, com quem estava em contacto, riu-se e disse que era uma brincadeira (ainda se desculpou dizendo que o repórter não estava a festejar com os portistas), os rapazes que o atiraram riram-se, nas redes sociais a partilha do vídeo foi viral e toda gente reagiu de forma animada. Houve quem ligasse o "atirar do microfone" de Cristiano Ronaldo, ao momento.
    Mas será isto uma brincadeira adequada? Consentida já sabemos que não. O Paulo Jorge Duarte terá ficado contente por, muito provavelmente, lhe terem estragado o telemóvel? Não se terá assustado? E se não soubesse nadar?

    Para mim, este episódio não teve piada nenhuma. Foi apenas mais uma demonstração de algo que já tendo sido denunciado em parte, há uns anos atrás, por cá continua a acontecer : o desrespeito por um profissão e por quem trabalha na área do jornalismo.

    Parece que se tem como ponto assente que, especialmente em ambiente futebolístico, o repórter é alguém a quem se pode fazer tudo, um boneco, que tem de manter a postura em frente à câmara independentemente do que está a acontecer à sua volta. E como normalmente os abusos acontecem em clima de "brincadeira", vale tudo.

    Há dois anos atrás, aquando do Mundial, os casos de desrespeito pelos repórteres ganharam algum mediatismo no caso concreto das mulheres. Estávamos em pleno período #MeToo e nasceu um outro hashtag relacionado com a problemática dos diretos em ambiente futebolístico, o #Deixaelatrabalhar. Os casos de repórteres apalpadas, beijadas, assediadas em pleno direto era chocante, e mais chocante ainda a reacção dos colegas em estúdio. Tal como no acontecimento de ontem, era rir e dizer umas graçolas.

    Se nas mulheres o caso choca pelo asco que nos dá, ver símios excitados, em grupo, a perturbar o trabalho e a violentar as repórteres, o caso dos homens não deve ser tido como de menor gravidade.
    Um repórter, um jornalista, é uma pessoa que está a trabalhar. Não é um brinquedo e não tem de permitir que lhe façam o que quiserem e manter-se impávido e sereno. Não é normal que todos achemos piada e muito menos os colegas de profissão.
    Estranho imenso que ninguém fale no assunto com a seriedade que, a meu ver, merece.
    Tentem imaginar que estão no vosso trabalho, e alguém que não conhecem, do nada, decide despejar-vos um balde de água fria em cima. Era só uma brincadeira?

    Deixem as touradas em paz

    Ao contrário do que pode indicar o título deste texto, quem o escreve não é adepto de touradas.

    Sendo português, desde pequeno que convivo com a transmissão de touradas na televisão. Sei que as únicas coisas que me atraiam no evento eram o momento dos forcados e a música. Com o avançar da idade e alguma (pouca) reflexão sobre o tema, fui-me apercebendo de que não conseguia nutrir simpatia por um espetáculo que consiste em torturar um animal. Cheguei a ir a uma tourada, para tirar as teimas e foi plenamente esclarecedor. Touradas não são para mim. Não conseguia entender, nem remotamente, o êxtase do público por cada bandarilha espetada no touro.

    Passando à frente esta pequena contextualização da criação da minha opinião, relativamente às atividades tauromáquicas, devo dizer ainda assim, que não me tornei partidário da proibição.
    O nosso país tem uma grande diversidade cultural, que não se pode recortar a régua e esquadro, a partir de Lisboa, conforme o gosto de quem lá está a ocupar cargos governativos. Concordo que é uma tradição na qual não me revejo, mas também não serei eu, de citadino, que tenho de rever.  São as pessoas dos locais em que essa prática é uma tradição, que devem rever essa representação. E o tempo é que vai demonstrar ou não, se esta é uma cultura em declínio.
    A tourada acaba quando ninguém a quiser. Não há outra forma, porque os argumentos que utilizam para forçar o seu fim, não fazem sentido.
    O argumento financeiro, que foi trazido ao de cima para fazer melhor figura que o simples argumento do gosto, não tem nexo pois a tauromaquia não tem um peso financeiro especialmente acentuado, que origine tamanha indignação. E a tentativa de dizer que o dinheiro era mais útil se aplicado aqui ou acolá... vai ao encontro do argumento do gosto.
    O outro argumento, dos maus tratos ao animal, tem bastante lógica. Mas começar a proibir uma tourada pelos maus tratos aos animais, vai desencadear todo um rol de novas possibilidades proibitivas. E esbarra na hipocrisia.
    Enquanto sociedade, nós, humanos, diariamente agredimos outros animais. Seja para nos alimentarmos, seja por desporto, necessidade ou investigação científica. Muito do que hoje existe, existe graças aos maus tratos que infelizmente infligimos a outros animais. Como é que se podem proibir uns, dizendo que se quer defender os animais, e fechar os olhos a outros?
    Até onde se tinha de ir para realmente respeitarmos os animais? Quão hipócrita é, deputados se fazerem preocupados com os touros?


    Por estes motivos, não me chocaria que determinadas regiões tivessem um estatuto próprio  para a realização exclusiva de touradas, enquanto meio de atração turística e potenciação económica. Limitar a prática a esses locais, de onde a tradição tem as suas raízes, seria benéfico para os concelhos em questão e entregava a decisão da fomentação ou não desta prática, a quem de direito.

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    Quanto custa viver em sociedade?

    Acorda de manhã, um pouco antes das 8:00, para ter tempo de tomar banho, vestir, comer e fazer o caminho até ao emprego, cujo horário de oito horas se inicia às 9:30.

    Até este dia, houve todo um percurso semelhante a tantos outros, percorrido por este Homo Sapiens Sapiens, que acordou novamente algo aborrecido e se injetou com "tem de ser" para não desesperar mais que o necessário. Concordou, sem consciência disso, com tudo o que já antes os seus antepassados concordaram e, continua a concordar com aquilo que sabe através dos folhetins redigidos por outros como ele. Para se manter seguro, isto é, para que não o matem ao virar da esquina, este Sapiens concordou com toda uma panóplia de regras, umas com letra grande, outras com letra pequena. Na verdade, não foi ele mas alguém antes dele. Porque este Sapiens já não tem outra opção, agora.

    Tem um número. Em bom rigor, vários números. Um para que se saiba que nome tem o Sapiens, quanto mede, onde vive e com quem. Outro para que se saiba quanto ganha, como e porquê. Mais um número para garantir que caso necessite de apoio, por não estar a ganhar nada, o tenha. Mas também para dar uma contribuição não voluntária a outros Sapiens em apuros. Há também um número para este Ser inteligente poder ser assistido em caso de doença, mas também para dar as suas doenças a conhecer. Saltando alguns números na lista, há também um número para comunicar com outros membros da sua comunidade, que também pode servir para dar conhecimento da sua localização exata e deixar registado aquilo que diz e escreve aos seus semelhantes.

    Este pertencente ao Reino da Animalia, tem uma longa lista de regras para cumprir, algumas das quais nunca irá ter conhecimento. Fá-lo para que haja uma certa ordem, uma concordância, uma organização que lhe confira o sentimento de estabilidade e, até uma determinada idade, esperança. Acha ele pelo menos. Na realidade, fá-lo para poder coexistir com os outros sem sentir ameaçado. É que por muito pacífico que esta criatura possa parecer, é a mais perigosa do planeta Terra. Para si própria e para todos os outros seres vivos que a rodeiam. Precisa de se domesticar a si própria para sobreviver, por isso necessita de organização e regras. Muitas regras.


    Deste modo, o nosso Homo Sapiens Sapiens que hoje se levantou, cede com agrado parte da sua liberdade, em troca de segurança e alguma ilusão de liberdade total. Ele diz orgulhosamente que pode fazer tudo o que quiser. Desde que não faça o que nas regras se diz que é proibido. Pode ser o que quiser e escrever a sua própria história. Desde que amealhe o dinheiro suficiente e não se esqueça de fazer a sua generosa contribuição mensal para, a entidade à qual deve respeito e obediência, com a qual concordou ao nascer, o Estado.
    Agora, até consegue ir a todo o lado por vários caminhos disponíveis e criados pela entidade, desde que ceda generosamente a informação de quando, como e porque é que vai onde quer que vá.
    Tudo o que tem está registado, catalogado e numerado algures, não sabe onde, mas é o que lhe permite saber o que tem e pode ter.
    Paralelamente à concordância com o Estado, este Sapiens Sapiens, concorda em acréscimo, diariamente, com a cedência de informações do seu dia a dia entediante a outros Seres, que criaram esquemas tecnologicamente modernos e que trouxeram uma melhoria para a sua qualidade de vida, acha ele. Através destes mecanismos, ele nunca está sozinho. Todos sabem que este é um animal de socialização, só ainda não sabiam que era socialização permanente. Agora sabem, gostam e cedem com agrado uma parte da sua liberdade para a manter.
    Ao final das oito horas do horário de trabalho, oito horas que este conjunto de células basculante e ruidoso não terá nunca mais, seguirá para uma caverna com milhares de anos de aperfeiçoamento, e juntar-se-á a outros seres que consigo vivem, sentados à volta da fogueira sem chama onde poderá ver quem vive, cedendo mais um pouco do seu tempo, a que chama de "tempo livre".

    Nesse período mínimo de rotação da Terra, ficará mais uma vez registado, sabe-se lá onde e por quem, onde está, o que está a fazer, com quem, quanto dinheiro perdeu ou ganhou naquele dia e como o irá gastar. O ciclo repetir-se-à, com algumas oscilações e poucos desvios. Com uma indiferença à sua possibilidade consciente de sentir, em prol da diferença do que faz com as suas mãos. Amanhã será novamente livre doando o seu tempo, pagando juros através da sua infelicidade, e movendo-se na esperança de ter alguns anos em que não precisará de se preocupar com a hora de acordar. Nessa altura, os seus melhores anos já foram, e ficará a lamentar cada dia que vive através da ruína do seu organismo.
    Pagou para ser livre, para concordar, para se restringir, para se controlar, para se dizer livre por ser poder sentir membro da sua comunidade.

    Rotineiro, aborrecido, atraído pela destruição e pela negligência, eis o Homo Sapiens Sapiens, a criatura que não gosta de viver.

    Subvalorização da positividade

    Ainda há alguém ou algo que nos inspire? Que nos mobilize? Que nos faça fantasiar e encher de coragem, motivação, adrenalina...?

    Ainda seguimos ideias e causas "a favor" ou já só nos juntamos para ser contra?
    Olhando à nossa volta, vemos um mundo tumultuoso e em devir acelerado. Cada minuto perdido necessita de horas para o recuperar. Quem quiser deixar a sua marca no mundo, no país, na localidade, na rua, consegue fazê-lo através de ações positivas? Mobilizando qualidades que agora parecem banais - a solidariedade, a compaixão, o altruísmo -?

    E os exemplos, onde estão? Os grandes líderes. De causas monumentais, que nos ponham o sangue a ferver com um discurso de abalo mental. Há algum, que não seja uma repetição personalizada do que se vê por todo o lado?
    Só vemos as mesmas formas de falar, de agir, de reagir e de ver. As mesmas banalidades que não aquecem nem arrefecem. Até os extremistas já se tornam ruidosamente enfadonhos. Gritos repetidos e gestos copiados para se passarem por diferentes. No fundo, movem-se contra isto e aquilo tal como todos os outros. Acabar com aquilo e aqueloutro.
    Um deserto de ideias e um desesperante vazio de esperança. Agora só se movem multidões para contestar. Só se tornam aguerridos os que têm muita vontade de destruir algo ou alguém.
    É com esta gente, com esta forma de pensar, com este espírito de accionistas do contra, que devemos contar para que nos tornem o fardo menos pesado? São estes profetas do pugilismo verbal, que vão fazer com que o nosso ponto de partida não seja um fatal spoiler do ponto de chegada?

    Que motivação tem um ser humano, num contexto mais primeiro-mundista, para fazer algo para além de acordar, cumprir com seu horário de trabalho (ou doação de vida), voltar a casa para esperar que comece o dia seguinte e repetir este ritual até ser incapaz de o fazer? Como é que alguém se pode sentir insipirado e querer inspirar outros?
    Isso ainda exisitirá?