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The Pólis

The Pólis

Em quem é que o Ministro se inspira para negociar tão bem

O Ministro das Infraestruturas gaba-se de saber fazer grandes negócios, já descobri o seu segredo.

Pedro Nuno Santos, Ministro das infraestruturas, dizia há pouco mais de um mês que Portugal poderia ensinar os outros a fazer bons negócios, referindo-se especificamente ao caso da compra de carruagens da CP. "Ainda bem", depreenderia o leitor mais distraído.
Estas tais carruagens e consequentemente este excelente negócio, vieram esta semana a público. E não pelos melhores motivos. Parece que o excelente negócio foi comprar carruagens à vizinha Espanha, que as tinha paradas por conterem amianto...

O Ministro tinha toda a razão em achar que foi um excelente negócio. Para os espanhóis.

Assim, depois de uma intensiva pesquisa, descobri quem são os seus gurus da negociação. Em que é que se inspirou Pedro Nuno Santos para negociar tão bem? A resposta está neste vídeo:

 

"Inside The World´s Toughest Prisons"

As prisões mais duras do planeta

Inside The World´s Toughest Prisons é uma série documental, adquirida pela Netflix, que nos leva para dentro das prisões ditas mais perigosas do mundo.
A série original foi lançada no Channel 5, do Reino Unido, em 2016 e era apresentado pelo jornalista Paul Connolly. Aqui, não sei o motivo mas contou apenas com a temporada inicial de 4 episódios.

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Dois anos depois, a Netflix, como já é hábito, repescou o programa e lançou-o na sua plataforma de streaming, onde já conta com mais 3 temporadas. O mote permanece o mesmo, entrar nas prisões mais complicadas do mundo, mas agora através do jornalista Raphael Rowe, também ele um ex-condenado no Reino Unido - por um crime que não cometeu - e que esteve encarcerado numa prisão de alta segurança durante 12 anos.

O registo é diferente, não transmitindo tanto a ideia de que estamos a ver um documentário clássico, e para isso foram alterados pequenos pormenores que se revelam determinantes para o efeito. Destaco a não dublagem dos testemunhos dos prisioneiros como um deles, deixo os restantes para quem queira ver a série, descobrir.


Por desatenção minha, que é bastante recorrente, comecei a série de trás para a frente. Isto é, comecei na 4ª temporada e já apresentado por Raphael. Não tem qualquer problema, pois cada episódio conta a estória de uma prisão, não tendo qualquer influência o que se passou em outro episódios. No entanto, devo dizer que chegando à 1ª temporada, há um grande choque de estilos e que prefiro bastante o da Netflix.

Feita esta longuíssima contextualização da série, partilho um pouco do que vi, mais concretamente dois episódios, ou seja, duas prisões. que me mereceram alguma reflexão. Trata-se do Estabelecimento Prisional de Tacumbu, no Paraguai e do Estabelecimento Prisional de Melrose, nas ilhas Maurícias.
Dois países completamente diferentes, duas formas de lidar com criminosos opostas, mas a mesma dureza na vida de todos os prisioneiros, na luta pela sobrevivência.

Das duas, vi primeiro o episódio referente à prisão no Paraguai. É nos apresentada como uma prisão altamente sobrelotada, em que os guardas não chegam à meia centena, para mais de mil prisioneiros. As primeiras imagens são de uma miséria extrema, só descritível como as piores ideias que consigam imaginar de uma das piores favelas que tenham conhecimento existir. Um pátio, repleto de gente com roupa rasgada ou completamente desajustada em termos de tamanho, a drogar-se sem qualquer pudor ou discrição. Todos dormem no chão, marcando o seu lugar no pátio. Autênticos sem-abrigo dentro de uma prisão.

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Mas o apresentador é encaminhado para uma outra seccção e apresentado ao prisioneiro que está encarregue de a gerir (!!). O edifício em questão é uma bolha dentro da prisão, já com camas, casas de banho e algumas atividades de trabalho. O mínimo comum em qualquer prisão. Quem é que vai para esta secção? Quem se compromete em seguir as regras impostas pelo seu proprietário: a Igreja Católica. Os prisioneiros que queriam aceder aos "privilégios" deste bloco, e dormir numa cama, não podem ter vícios, não podem protagonizar qualquer ação de violência e têm obrigatoriamente de assitir à missa. Estas foram algumas das regras apresentadas, não ficamos a saber se existem mais.


Após a visita a esta parte da prisão, Raphael volta à "zona de calamidade", onde somos confrontados com algo que, pelo menos eu nunca tinha visto. Entra na prisão uma espécie de carroça, carregada com lixo doméstico, que é despejada numa parte do pátio. Este lixo, pelo relato de um dos presidiários com quem o jornalista conversa, é ali despejado para que os presos daquela zona possam remexer e procurar comida e outros objetos que considerem de valor. A felicidade com que o recluso amealhava fruta podre era surreal, no entanto revelou ao programa que era ótima para vender dentro da prisão. Acho que isto já passa uma ideia do que ali se vive.

Quando estamos a digerir toda esta informação, todo este degredo humano dentro de uma instituição prisional, eis que nos mostram uma terceira zona da prisão.

Se considerarmos que o pátio onde se drogavam, agrediam e catavam lixo era o patamar zero, da condição de sobrevivência da prisão, e se dentro dessa catalogação pudermos ver o bloco patrocinado pela Igreja, como o patamar a seguir, em que já são fornecidos alguns mínimos, então o seguinte será um três que parece quase um quatro. Mas adiante com esta coisa dos números.

O que se vê a seguir é um autêntico mercado, que nos remete para qualquer outro que já vimos na televisão ( para quem não viajou até ao local, claro), em países como a Tailândia ou algo do género. Escuro, com imensas bancas dos mais diversos produtos. O mais incrível é que, dado o desgoverno daquela prisão, isto significa que todos os objetos e mais alguns, conseguem entrar na prisão. Foi nos mostrado desde uma banca de croissants até uma de reparação de computadores e até outra de aluguer de quartos!

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Basicamente aquela zona da prisão era uma mini-sociedade, onde se adquiriam todos os serviços como se se estivesse no exterior, e onde era possível fazer tanto ou mais dinheiro que no "Mundo real". Foi francamente surpreendente, pela negativa e pela positiva. Se por um lado é bom que haja uma mudança na vida daquelas pessoas, e que possam experimentar uma simulação de vida normal, por outro não é suposto e é altamente perigoso para os poucos guardas naquela instituição.

A segunda prisão que, para mim, merece destaque é a de Melrose, como já tinha escrito no início (não bem no início) do texto.
Estão a ver as ideias que temos de uma prisão de alta segurança, ou de prisioneiros de alto risco, em continentes que não a Europa e os EUA? Prisioneiros assustadores, gangues, infraestruturas intimidadoras? Assim mais perto do que foi descrito na prisão do Paraguai, mas com camas para todos.

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A prisão de Melrose é o oposto. O próprio apresentador, quando chega ao estabelecimento prisional constata imediatamente algo que nunca tinha sentido: Silêncio numa prisão.
 Esta constatação tem mais importância se nos relembarmos que Raphael Rowe é, para além de jornalista, ex-recluso numa prisão de alta segurança.


Após este primeiro impacto, há uma segunda evidência com a qual o nosso anfitrião se surpreende, que a limpeza do local. A prisão tem um aspecto asseadíssimo, sem um papel no chão ou uma erva daninha a teimar que também quer ser presa.


 É nos então feita uma breve contextualização acerca da história da prisão. Ao que consta, era um estabelecimento bastante problemático e que gerava bastante interesse mediático por esse mesmo motivo. Ora não sendo as Ilhas Maurícias conhecidas pela sua produção seja do que for, não foge ao clichê de muitas outras ilhas e como tal vive quase exclusivamente do turismo. A seguir a uma catástrofe natural ou uma guerra, a criminalidade e a reputação de local com alta criminalidade devem ser o terceiro principal espanta-turistas de qualquer país.

O governo das Ilhas Maurícias deliberou então que deveria resolver o problema rapidamente, e para isso optou por nomear um novo comissário para gerir o Estabelecimento Prisional de Melrose e reforçar-lhe os poderes, tornando-se praticamente num comissário absoluto.
Esta decisão mudou tudo e a prisão é atualmente gerida com mão de ferro. No pátio, os reclusos não falam, ou falam muito baixo, quase a sussurrar. 


Os cigarros foram proibidos de um dia para o outro, e bem se sabe como os cigarros são a "moeda" de qualquer prisão. Raphael consegue chegar à fala com pelo menos dois prisioneiros, um originário da Ilha e outro Europeu. Pergunta ao primeiro, porque é se sente uma tensão tão grande no ar, e este responde-lhe com um sorriso nervoso. O segundo, europeu, sempre com uma expressão facial de quem não se deixou quebrar apesar de agir de acordo com o que os guardas pretendem, queixa-se da questão dos cigarros e diz que o que se passa na prisão "é política".

À semelhança de qualquer poutro estabelecimento prisional, Melrose também tem espaços de trabalho para os prisioneiros. A especialidade é a fabricação de sapatos. Mas desengane-se quem acha que o trabalho é remunerado, pois não só não é, como os sapatos são feitos apenas para os guardas. Uma outra unidade de trabalho, na qual o recluso europeu trabalha, produz peças de metal para serem utilizadas no estabelecimento - quase que produz as suas próprias grades.

Há uma constante "aura", se assim pudermos chamar, de repressão dentro de Melrose. Uma paz podre. Obviamente que não estou com isto a dizer que uma prisão deveria ser um lugar de liberdade e felicidade.


A Direção do estabelecimento no entanto, parece ter alguma noção de que apesar de ter as coisas sob controlo, pode estar a provocar uma situação de efeito "panela de pressão", mas não querendo aliviar nas suas medidas para não ceder, optou por introduzir algo também bastante invulgar.
Pelo que foi dito no episódio, ainda era uma prática recente, restrita a um pequeno número de presidiários, mas que surte efeitos positivos no comportamento destes: são aulas de Tai Chi. A dado momento temos a caricata imagem de um grupo de criminosos a praticar lenta e calmamente, com um sincronismo asiático, os movimentos desta arte marcial.
O professor assegura que tem recebido o feeback positivo dos alunos.

Estes dois sistemas completamente opostos, deram-me que pensar e remeteram-me para uma comparação económica ou política, consoante prefiram.
Diria que o sistema do Paraguai, se assemelha ao sistema capitalista democrático:
Há um claro fosso entre quem vive com dignidade(a possível dentro da prisão) e quem não vive. E há quem esteja no meio. A dificuldade para mudar de estágio é muito alta, especialmente neste ambiente, mas possível. 
Há gente muito infeliz e perdida, mas quem esteja tão bem que nem quer sair. E sobretudo, sem intervenção dos guardas, houve capacidade de organização e para se estabelecerem regras e comércio. Há primeiro vista, é feio? Parece muito mais inseguro? Parece. Mas também me parece mais realista.

O sistema das Ilhas Maurícias, para mim apresenta muitas semelhanças a um sistema ditatorial:
Um local impecavelmente bem tratado, sem incidentes, com prisioneiros disciplinados e bem comportados. Trabalham, cooperam e cumprem as suas sentenças em harmonia. Todo um clima de consenso que soa a utopia, tal e qual uma ditadura. Num regime autoritário tudo aparenta correr às mil maravilhas, até descobrirmos como no caso de Melrose, que as refeições são sempre pão e água ou que um prisioneiro que seja apanhado com 1 cigarro tem direito a 16 dias na solitária (com as condições previamente mencionadas).
Não é normal tanto consenso, tanta harmonia. Não é normal que ninguém conteste nada, não questione nada ou que nunca tenha um acesso de fúria.
  Parece muito mais organizado? Sim. Parece bem mais seguro? Também. Mas completamente irrealista e sufocante.

Colocando-me no lugar de um prisioneiro, e tendo apenas como opção estas duas prisões, tenho que admitir que pela minha segurança talvez preferisse ir para as Ilhas Maurícias, mas pela minha sanidade mental teria de optar pelo Paraguai.

 

Se acha que o RSI é assim tão bom, despeça-se

Este fim-de-semana surgiu nos media, a proposta do Chega de aumentar a fiscalização a quem recebe o Rendimento Social de Inserção (RSI) e obrigar os beneficiários a exercer serviço comunitário.
Apesar da proposta não ser totalmente nova, no meu pouco tempo de observação nas redes sociais pude constatar dezenas de reacções. E são algo surpreendentes.

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Não tinha a noção que tanta gente inveja o RSI ou considera que quem o recebe é um malandro que se quer aproveitar do sistema. É claro que esta proposta, vindo do partido que vem, é apenas um prolongamento natural da sua agenda de assimilação dos ciganos, utilizando um ideia de senso-comum de que todos eles recebem RSI, mantendo paralelamente os seus negócios de comércio ambulante.
Não tenho conhecimento sobre estatísticas onde se tenha aferido tal comportamento, por parte desta comunidade em particular, no entanto fiquei surpreendido com a aparente positividade com que foi recebida a proposta. Ao que parece, através dos comentários que fui lendo, a minha "sondagem" pessoal, indica que há toda uma franja populacional que considera que se tem de fiscalizar mais estas pessoas que recebem centena e meia de euros do Estado, e exigir-lhes trabalho para merecerem o que recebem...


Estas propostas claramente fazem vir ao de cima o portuguesinho mesquinho, que inveja sempre a galinha do vizinho, ainda que esta seja um pinto enfezado. Pergunto-me é, se há tanta gente que acha que receber o RSI é ter "boa vida", porque é que não se despedem e pedem-no também?

Outro pormenor, ou pormaior se me perguntarem, é o facto de a proposta vir do partido cujo líder proclama deitar abaixo o sistema, destruir a corrupção e "fazer das tormentas boa esperança". Ora ligando estas suas vontades, por exemplo, a esta proposta, a coisa parece-me contraditória e algo caricata.

Apresenta-se então o grande destruidor da corrupção, que faz tremer o PS e os interesses instalados... e começa pelos desempregados! Não vão estas pessoas, esta cambada de sanguessugas querer aproveitar-se do sistema para receber 200€, o salvador André já está no seu encalce.

Os outros, os grandes, os Ricardos, os Joes e os Escárnias, ficam para o fim. Afinal até o povo concorda não é verdade? Não hão de dizer que somos mansos...

Racismo, o derby voltou.

Um homem matou outro em Moscavide. Um homem idoso matou um outro homem jovem em Moscavide. Um homem idoso e branco matou um homem jovem e preto.

Escolha a frase que melhor lhe convier.

Infelizmente, pelo ambiente mundial, americanizado, que se vive afastomo-nos sempre do essencial para discutir o acessório. Eu escolho a primeira frase, porque considero ser a correta. Seja qual for a motivação, um homicídio é um homicídio. O que se tenta fazer dele a seguir, é só a amostra da putrefacção que se vive na política.

A discussão patética do "Portugal é Racista" vs "Portugal não é racista", está de volta, e os extremos políticos já a recebem de bom grado.
Eu não sei se Portugal tem um racismo institucional ou não, mas sei que Portugal não tem níveis de racismo comparáveis com aquele que querem fazer crer que temos. Não, os pretos não temem andar na rua, nem temem imediatamente pela vida quando abordados pela polícia. Isto não são os Estados Unidos da América.
Por incrível que pareça, os pioneiros a  importar polémicas americanas para cá, são os mesmos que fazem bandeira, a luta contra o americanismo por representar o climax do capitalismo - falo do Bloco de Esquerda.

O Racismo só não existe onde não exista gente. Deve ser repudiado e criminalizado. Mais que isso tem o efeito inverso: acicata-o. Ter um partido a dizer constantemtente que vivemos num país de brancos contra pretos, vai provocar a existência de um partido que diga o oposto. Até há bem pouco tempo só contávamos com um, agora já contamos com o segundo. O Chega, na sua senda de dar nas vistas, já chamou a si o papel de contraria a esquerda em tudo, nem que para isso tenha de dizer as maiores barbaridades.
Portanto, descemos ao nível em que temos o BE a dizer que há gente que considera não haver racismo em Portugal, e o Chega a dizer que há quem considere que tudo é racismo.

Isto não serve de nada, nem ajuda em nada. Só piora, só divide, só alimenta e cria hostilidades desnecessárias entre portugueses. Estes dois partidos são o espelho um do outro, e aproveitam tragédias para promoverem as suas agendas.

Eu continuarei a fazer o possível por evitar esta dicotomia tola. Acho que é de bom senso, perceber que há gente decente e gente indecente em todo o lado. Nem somos todos santos, nem todos pecadores.

O importante é que se faça justiça, e que o homem que matou outro homem seja punido.

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Limpar os pés na cara de quem estuda

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Não ofender, tem sido o mote nos últimos tempos para proibir, apagar, recuar, evitar em inúmeras situações. Umas vezes por iniciativa estatal, outras de índole privada e até de cariz pessoal. Também tem originado acérrima discussão entre os que defendem o direito a ofender e os que têm uma lista interminável de situações que consideram ofensivas.


A TVI, e especificamente o reality-show Big Brother, têm (não sabemos se oportunisticamente ou não) surfado esta onda com grande destaque. O programa tem apostado em evitar situações ofensivas, ao sabor do que se vai escrevendo nas redes sociais. Violência físíca e verbal, expressões discriminatórias, bullying entre outros, têm sido veementemente repudiados e reprimidos pela organização do programa. Por vezes díscutivel, mas na generalidade bem apontado. Ainda que acabe por tornar um programa que, já por si é bastante censório, num quadrado bastante reduto, de liberdade. Não espelha de todo o que é a vida "cá fora", como é apanágio dos promotores do formato, dizerem.
Durante o fim-de-semana, parece que uma ex-concorrente do programa, Sónia Jesus, se estreou numa nova via profissional: Repórter. A novidade acabou por colidir com alguma indignação, muítissimo moderada, nas redes sociais. Não é que não se esteja habituado a ter incompetentes a trabalhar na televisão, ou a ver promovida, gente sem qualquer formação para o que faz. Mas cada vez custa mais.


A TVI que se tem preocupado tanto em não ofender, não terá ninguém na Direção que veja o quão ofensivo é catapultar uma ex-concorrente de reality show dos mercados, diretamente para o lugar de repórter?
Há milhares de jovens, todos os anos a ingressar em cursos de jornalismo, comunicação social, ciências da comunicação e que na maioria dos casos nunca vêem retorno para o investimento pessoal e financeiro que fizeram. É justo que fiquem em casa a depararem-se com uma Sónia a exercer algo para o qual não tem absolutmente mérito nenhum?
Serão os diretores de programas da TVI assim tão desprovidos de ética e brio profissional, que não se importam de negligenciar a prórpia área em prol de audiências?

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É caricato que este tipo de desrespeito pelos estudantes e pelos pais dos estudantes, não seja tido em conta como "conteúdo ofensivo". Os pais ficam confortáveis a ver que andam a financiar cursos aos filhos para chegarem estas pessoas e passarem à frente?
Os coordenadores de cursos superiores de comunicação não têm nada a dizer? As Instituições de Ensino Superior onde são leccionadas estas àreas, não se importam com a desvalorização que isto significa para os cursos?
Esta é mais uma daquelas situações que não se vê noutra profissão. Porque mais uma vez fica patente, que se olha para os profissionais da comunicação como palhaços de circo. Não se ousaria colocar um qualquer a fazer de advogado, engenheiro ou gestor. Mas aqui, quem entreter melhor passa à frente de quem se esforça e dedica uma parte da sua vida a estudar para exercer a profissão.

 

Brinquem com o vosso trabalho, não com o meu

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Ontem, durante um directo da CMTV, o repórter Paulo Jorge Duarte foi atirado a uma piscina por alegados membros da claque Super Dragões. O seu colega pivot, com quem estava em contacto, riu-se e disse que era uma brincadeira (ainda se desculpou dizendo que o repórter não estava a festejar com os portistas), os rapazes que o atiraram riram-se, nas redes sociais a partilha do vídeo foi viral e toda gente reagiu de forma animada. Houve quem ligasse o "atirar do microfone" de Cristiano Ronaldo, ao momento.
Mas será isto uma brincadeira adequada? Consentida já sabemos que não. O Paulo Jorge Duarte terá ficado contente por, muito provavelmente, lhe terem estragado o telemóvel? Não se terá assustado? E se não soubesse nadar?

Para mim, este episódio não teve piada nenhuma. Foi apenas mais uma demonstração de algo que já tendo sido denunciado em parte, há uns anos atrás, por cá continua a acontecer : o desrespeito por um profissão e por quem trabalha na área do jornalismo.

Parece que se tem como ponto assente que, especialmente em ambiente futebolístico, o repórter é alguém a quem se pode fazer tudo, um boneco, que tem de manter a postura em frente à câmara independentemente do que está a acontecer à sua volta. E como normalmente os abusos acontecem em clima de "brincadeira", vale tudo.

Há dois anos atrás, aquando do Mundial, os casos de desrespeito pelos repórteres ganharam algum mediatismo no caso concreto das mulheres. Estávamos em pleno período #MeToo e nasceu um outro hashtag relacionado com a problemática dos diretos em ambiente futebolístico, o #Deixaelatrabalhar. Os casos de repórteres apalpadas, beijadas, assediadas em pleno direto era chocante, e mais chocante ainda a reacção dos colegas em estúdio. Tal como no acontecimento de ontem, era rir e dizer umas graçolas.

Se nas mulheres o caso choca pelo asco que nos dá, ver símios excitados, em grupo, a perturbar o trabalho e a violentar as repórteres, o caso dos homens não deve ser tido como de menor gravidade.
Um repórter, um jornalista, é uma pessoa que está a trabalhar. Não é um brinquedo e não tem de permitir que lhe façam o que quiserem e manter-se impávido e sereno. Não é normal que todos achemos piada e muito menos os colegas de profissão.
Estranho imenso que ninguém fale no assunto com a seriedade que, a meu ver, merece.
Tentem imaginar que estão no vosso trabalho, e alguém que não conhecem, do nada, decide despejar-vos um balde de água fria em cima. Era só uma brincadeira?

Deixem as touradas em paz

Ao contrário do que pode indicar o título deste texto, quem o escreve não é adepto de touradas.

Sendo português, desde pequeno que convivo com a transmissão de touradas na televisão. Sei que as únicas coisas que me atraiam no evento eram o momento dos forcados e a música. Com o avançar da idade e alguma (pouca) reflexão sobre o tema, fui-me apercebendo de que não conseguia nutrir simpatia por um espetáculo que consiste em torturar um animal. Cheguei a ir a uma tourada, para tirar as teimas e foi plenamente esclarecedor. Touradas não são para mim. Não conseguia entender, nem remotamente, o êxtase do público por cada bandarilha espetada no touro.

Passando à frente esta pequena contextualização da criação da minha opinião, relativamente às atividades tauromáquicas, devo dizer ainda assim, que não me tornei partidário da proibição.
O nosso país tem uma grande diversidade cultural, que não se pode recortar a régua e esquadro, a partir de Lisboa, conforme o gosto de quem lá está a ocupar cargos governativos. Concordo que é uma tradição na qual não me revejo, mas também não serei eu, de citadino, que tenho de rever.  São as pessoas dos locais em que essa prática é uma tradição, que devem rever essa representação. E o tempo é que vai demonstrar ou não, se esta é uma cultura em declínio.
A tourada acaba quando ninguém a quiser. Não há outra forma, porque os argumentos que utilizam para forçar o seu fim, não fazem sentido.
O argumento financeiro, que foi trazido ao de cima para fazer melhor figura que o simples argumento do gosto, não tem nexo pois a tauromaquia não tem um peso financeiro especialmente acentuado, que origine tamanha indignação. E a tentativa de dizer que o dinheiro era mais útil se aplicado aqui ou acolá... vai ao encontro do argumento do gosto.
O outro argumento, dos maus tratos ao animal, tem bastante lógica. Mas começar a proibir uma tourada pelos maus tratos aos animais, vai desencadear todo um rol de novas possibilidades proibitivas. E esbarra na hipocrisia.
Enquanto sociedade, nós, humanos, diariamente agredimos outros animais. Seja para nos alimentarmos, seja por desporto, necessidade ou investigação científica. Muito do que hoje existe, existe graças aos maus tratos que infelizmente infligimos a outros animais. Como é que se podem proibir uns, dizendo que se quer defender os animais, e fechar os olhos a outros?
Até onde se tinha de ir para realmente respeitarmos os animais? Quão hipócrita é, deputados se fazerem preocupados com os touros?


Por estes motivos, não me chocaria que determinadas regiões tivessem um estatuto próprio  para a realização exclusiva de touradas, enquanto meio de atração turística e potenciação económica. Limitar a prática a esses locais, de onde a tradição tem as suas raízes, seria benéfico para os concelhos em questão e entregava a decisão da fomentação ou não desta prática, a quem de direito.

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Quanto custa viver em sociedade?

Acorda de manhã, um pouco antes das 8:00, para ter tempo de tomar banho, vestir, comer e fazer o caminho até ao emprego, cujo horário de oito horas se inicia às 9:30.

Até este dia, houve todo um percurso semelhante a tantos outros, percorrido por este Homo Sapiens Sapiens, que acordou novamente algo aborrecido e se injetou com "tem de ser" para não desesperar mais que o necessário. Concordou, sem consciência disso, com tudo o que já antes os seus antepassados concordaram e, continua a concordar com aquilo que sabe através dos folhetins redigidos por outros como ele. Para se manter seguro, isto é, para que não o matem ao virar da esquina, este Sapiens concordou com toda uma panóplia de regras, umas com letra grande, outras com letra pequena. Na verdade, não foi ele mas alguém antes dele. Porque este Sapiens já não tem outra opção, agora.

Tem um número. Em bom rigor, vários números. Um para que se saiba que nome tem o Sapiens, quanto mede, onde vive e com quem. Outro para que se saiba quanto ganha, como e porquê. Mais um número para garantir que caso necessite de apoio, por não estar a ganhar nada, o tenha. Mas também para dar uma contribuição não voluntária a outros Sapiens em apuros. Há também um número para este Ser inteligente poder ser assistido em caso de doença, mas também para dar as suas doenças a conhecer. Saltando alguns números na lista, há também um número para comunicar com outros membros da sua comunidade, que também pode servir para dar conhecimento da sua localização exata e deixar registado aquilo que diz e escreve aos seus semelhantes.

Este pertencente ao Reino da Animalia, tem uma longa lista de regras para cumprir, algumas das quais nunca irá ter conhecimento. Fá-lo para que haja uma certa ordem, uma concordância, uma organização que lhe confira o sentimento de estabilidade e, até uma determinada idade, esperança. Acha ele pelo menos. Na realidade, fá-lo para poder coexistir com os outros sem sentir ameaçado. É que por muito pacífico que esta criatura possa parecer, é a mais perigosa do planeta Terra. Para si própria e para todos os outros seres vivos que a rodeiam. Precisa de se domesticar a si própria para sobreviver, por isso necessita de organização e regras. Muitas regras.


Deste modo, o nosso Homo Sapiens Sapiens que hoje se levantou, cede com agrado parte da sua liberdade, em troca de segurança e alguma ilusão de liberdade total. Ele diz orgulhosamente que pode fazer tudo o que quiser. Desde que não faça o que nas regras se diz que é proibido. Pode ser o que quiser e escrever a sua própria história. Desde que amealhe o dinheiro suficiente e não se esqueça de fazer a sua generosa contribuição mensal para, a entidade à qual deve respeito e obediência, com a qual concordou ao nascer, o Estado.
Agora, até consegue ir a todo o lado por vários caminhos disponíveis e criados pela entidade, desde que ceda generosamente a informação de quando, como e porque é que vai onde quer que vá.
Tudo o que tem está registado, catalogado e numerado algures, não sabe onde, mas é o que lhe permite saber o que tem e pode ter.
Paralelamente à concordância com o Estado, este Sapiens Sapiens, concorda em acréscimo, diariamente, com a cedência de informações do seu dia a dia entediante a outros Seres, que criaram esquemas tecnologicamente modernos e que trouxeram uma melhoria para a sua qualidade de vida, acha ele. Através destes mecanismos, ele nunca está sozinho. Todos sabem que este é um animal de socialização, só ainda não sabiam que era socialização permanente. Agora sabem, gostam e cedem com agrado uma parte da sua liberdade para a manter.
Ao final das oito horas do horário de trabalho, oito horas que este conjunto de células basculante e ruidoso não terá nunca mais, seguirá para uma caverna com milhares de anos de aperfeiçoamento, e juntar-se-á a outros seres que consigo vivem, sentados à volta da fogueira sem chama onde poderá ver quem vive, cedendo mais um pouco do seu tempo, a que chama de "tempo livre".

Nesse período mínimo de rotação da Terra, ficará mais uma vez registado, sabe-se lá onde e por quem, onde está, o que está a fazer, com quem, quanto dinheiro perdeu ou ganhou naquele dia e como o irá gastar. O ciclo repetir-se-à, com algumas oscilações e poucos desvios. Com uma indiferença à sua possibilidade consciente de sentir, em prol da diferença do que faz com as suas mãos. Amanhã será novamente livre doando o seu tempo, pagando juros através da sua infelicidade, e movendo-se na esperança de ter alguns anos em que não precisará de se preocupar com a hora de acordar. Nessa altura, os seus melhores anos já foram, e ficará a lamentar cada dia que vive através da ruína do seu organismo.
Pagou para ser livre, para concordar, para se restringir, para se controlar, para se dizer livre por ser poder sentir membro da sua comunidade.

Rotineiro, aborrecido, atraído pela destruição e pela negligência, eis o Homo Sapiens Sapiens, a criatura que não gosta de viver.

Subvalorização da positividade

Ainda há alguém ou algo que nos inspire? Que nos mobilize? Que nos faça fantasiar e encher de coragem, motivação, adrenalina...?

Ainda seguimos ideias e causas "a favor" ou já só nos juntamos para ser contra?
Olhando à nossa volta, vemos um mundo tumultuoso e em devir acelerado. Cada minuto perdido necessita de horas para o recuperar. Quem quiser deixar a sua marca no mundo, no país, na localidade, na rua, consegue fazê-lo através de ações positivas? Mobilizando qualidades que agora parecem banais - a solidariedade, a compaixão, o altruísmo -?

E os exemplos, onde estão? Os grandes líderes. De causas monumentais, que nos ponham o sangue a ferver com um discurso de abalo mental. Há algum, que não seja uma repetição personalizada do que se vê por todo o lado?
Só vemos as mesmas formas de falar, de agir, de reagir e de ver. As mesmas banalidades que não aquecem nem arrefecem. Até os extremistas já se tornam ruidosamente enfadonhos. Gritos repetidos e gestos copiados para se passarem por diferentes. No fundo, movem-se contra isto e aquilo tal como todos os outros. Acabar com aquilo e aqueloutro.
Um deserto de ideias e um desesperante vazio de esperança. Agora só se movem multidões para contestar. Só se tornam aguerridos os que têm muita vontade de destruir algo ou alguém.
É com esta gente, com esta forma de pensar, com este espírito de accionistas do contra, que devemos contar para que nos tornem o fardo menos pesado? São estes profetas do pugilismo verbal, que vão fazer com que o nosso ponto de partida não seja um fatal spoiler do ponto de chegada?

Que motivação tem um ser humano, num contexto mais primeiro-mundista, para fazer algo para além de acordar, cumprir com seu horário de trabalho (ou doação de vida), voltar a casa para esperar que comece o dia seguinte e repetir este ritual até ser incapaz de o fazer? Como é que alguém se pode sentir insipirado e querer inspirar outros?
Isso ainda exisitirá?

A Série da Polémica e a série de desinformação

 

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Muito se tem teclado e falado acerca da suposta polémica série de animação "Destemidas".
Houve quem ficasse muito ofendido e quem se apressasse a fazer a sua acérrima defesa.

Com o que vou lendo, destaco 2 coisas:

- Ninguém sabe o que faz um Provedor do Telespetador e há quem se aproveite disso para escrever umas tangas.
- Os comandos remotos das Tv´s devem servir, em algumas casas, apenas como elemento decorativo. Senão, certamente ninguém perdia tempo a embirrar com uma série.

Penso que pode ser útil, a leitura dos estatutos do Provedor (aqui) para se perceber as suas limitações, e talvez também o comunicado da RTP 2 (aqui) para dissipação de dúvidas sobre o que realmente aconteceu.

After Life

A review de um banal espectador

Fui ver a série After Life, caíndo num clássico : ir ver porque tem a pessoa X ou porque foi a pessoa X que produziu, como se isso fosse uma garantia de qualidade. Não é. Todos fazemos coisas boas e coisas más, todos temos mais apetência para A do que para B.

Fui ver porque acho piada ao Ricky Gervais. Não posso dizer que foi desapontante, porque não chega a tanto. Foi inócua.

Ao fim de uns pouco episódios da primeira temporada, já se conseguem prever as deixas dos personagens, principalmente as da personagem principal, Tony (Ricky Gervais). Algumas continuam sempre a ter piada, outras nem tanto.
Os erros na história, ou pelo menos as incoerências são demasiadas para passarem despercebidas e não me permitem retirar qualquer tipo de ilação mais profunda com a série, apesar da tentativa de se criarem momentos de reflexão melancólica com a música de fundo.

Um homem, nos seus 50, a quem lhe morreu a mulher, LISA, de cancro. Jornalista numa localidade pequena, está em aparente depressão e vive constantemente com o pensamento na sua falecida esposa.

Acorda e adormece a ver vídeos no computador, dele e da mulher - o espólio é exageradamente grande e perdura por duas temporadas inteiras - e durante o dia, entre arrastar-se para o trabalho e voltar, diz a alguém que tem muita vontade de morrer, que a vida sem a esposa não faz sentido. Há sempre um momento reservado para isso.

Torna-se cansativo e irrealista: alguém tão deprimido estaria disponível para ir trabalhar todos os dias? Diria constantemente a pessoas diferentes que se sente miserável e que se quer matar?
Tony torna-se tão saturante com a mesma linha de diálogo que acabamos por nos questionar e não se trata apenas de um egocêntrico a quem lhe morreu a mulher, dado que em todas as suas conversas, por muito que outras personagens lhe falem dos seus próprios dramas, ele canaliza-as para falar dele próprio e do luto que atravessa.

À parte disso, pormenores como a casa em que Tony vive (uma vivenda bastante composta) ou a  forma como gere o seu horário de trabalho (chega ao escritório fala com as pessoas e volta para casa), deixam-nos a pensar se condizem com que se esperaria de um jornalista de um periódico local à beira da falência.

Em suma, as inconsistências e a repetição do fio condutor da história tornam-se distracções que até metade da série são compensadas pelas falas engraçadas e pelo "super-poder" de Tony em dizer tudo o que lhe apetece. A partir daí, é apenas mais do mesmo e só se surpeendem os distraídos. É uma série que não deixa saudades.

 

 






 

Comunismo também é traição

 


A Polícia Judiciária apreendeu há pouco tempo uma série de documentos do arquivo da PIDE e da DGS, que estavam à venda na internet. Esta apreensão trouxe de novo ao de cima, a facilidade com que, após o 25 de abril, se alienavam documentos e património de Estado.
Relativamente aos documentos, tendo o Partido Comunista Português praticamente tomado conta de tudo, sempre houve imensos testemunhos de que entregavam documentão à URSS. Acusação que obviamente negam, como de resto negam tudo o que não lhe agrada que se saiba.
Este episódio recente da PJ, só veio reforçar esta tese como diz José Milhazes (https://outline.com/nJysMS)

Parece que naquela altura roubar documentação ao Estado para benefício de uma potência estrangeira, fazia parte de uma "política patriótica e de esquerda"...