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The Pólis

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  • Aquele avô bêbado que temos lá em casa

    Foi o tema de muitas conversas ontem, os trechos da intervenção de André Ventura em Portalegre, noticiados na comunicação social. O candidato do Chega (CH), tratou de deixar bem claro que estas eleições presidenciais servem para solidificar a implantação do partido e que o principal objetivo é melhorar o resultado das legislativas.

    O pior veio a seguir, quando começou a disparar para todos os lados, de forma infantil e jocosa. Disse que o João Ferreira era um operário "beto", que o Presidente da República parecia um esqueleto, que o batom vermelho da Marisa Matias não é muito bom para a imagem de uma presidente e, finalmente, que o Jerónimo de Sousa é como "aquele avô bêbado que temos lá em casa".

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    Não sei que avô é que o André Ventura tinha na sua família para achar que ter um avô bêbado em casa é algo generalizado na população portalegrense. Sei sim que o presidente do CH quer ser o Trump português e estes insultos fazem parte dessa tentativa de o ser.

    Essa tentativa, não assumida (no debate presidencial com Ana Gomes, Ventura mostrou-se perplexo pela socialista ter dito que ele era fã de Trump), é confrangedora e até pateta. Quem não tenha o hábito de acompanhar as notícias via TV, acerca da política norte-americana, onde logicamente Donald Trump foi figura pincipal nos últimos quatro anos, talvez não note. Os gestos, (o indicador levantado com a palma da mão virada para a frente p.ex) enquanto fala, muito pouco naturais como é de esperar numa imitação amadora. A roupa, como o sobretudo escuro e comprido com uma gravata enorme no meio. As expressões, "o pior da história", "o mais grave de sempre", cheio adjetivos superlativos, que são também das coisas que mais nos fazem soar o alarme de imitação relativamente ao presidente americano. E por último, o estilo bully, de constante ataque e ofensa infantil aos adversários, com o objetivo de os ridicularizar, que se materializa na criação de alcunhas ou, por exemplo nos debates, com a recorrente interrupção e interpelação chamando-os de mentirosos.

    Pego agora numa dessas alcunhas, a do "camarada de plástico", que acho que assenta muito melhor em André Ventura. O plástico a que me refiro não é o plástico útil que utilizamos no nosso dia-a-dia, é o plástico que imaginamos quando falamos na comida fast-food. A estratégia do CH e do seu presidente, é servir-nos política de entretenimento, uma política de plástico para consumo imediato. Ventura vai acabar por conseguir ter o seu lugar na história da política portuguesa, mas sem qualquer traço de autenticidade.

    A direita que agora se encanta muito com este partido e este homem, porque confunde ofender a esquerda com combater a esquerda, anda atrás de um imitador, um ator, que se engana a ele e aos outros para existir. Este exercício pode agora ter resultados muito interessantes, ou até não porque as sondagens são o que são, mas a médio longo prazo, trará consequência enormes para o espaço político da direita.

    Por andarem embevecidos com um estilo que personifica a caricatura que fazem da direita, os militantes desse espectro ideológico iram cunhar a caricatura como retrato fiel e nunca mais se verá a mesma como uma alternativa sólida, capaz de ocupar o poder em que seja apenas para castigar a esquerda.

    A direita que se comporta como o "avô bêbado", destrói aos poucos a sua casa, numa ilusão de afronta aos poderes instalados e de combate ao socialismo. Não se apercebem que o maior favor que fazem à esquerda é exatamente este, o de se comportarem como a esquerda sempre os adjetivou.

    "Lá fora", existem bons exemplos dos benefícios de uma direita decente, que se paute por valores morais e éticos, que não se limita a adjetivar negativamente os adversários, apresentando-se com soluções úteis, responsáveis e claras.
    Na Alemanha receia-se o fim da liderança de uma internacionalmente consolidada estadista de direita, Angela Merkel (porque a própria não pretende voltar a recandidatar-se). Em Espanha, o Partido Popular, de Pablo Casado, continua a re-conquistar os espanhóis, tendo colocado no lugar a extrema-direita do Vox e fazendo oposição séria aos socialistas de Sanchéz e comunistas de Iglesias.

    "Cá dentro", esta direita não está a saber comunicar, a saber vingar, a saber mostrar as diferenças entre ela e a direita trauliteira, entre ela e a esquerda oligarca.  Veremos o que nos reserva o futuro, mas a direita do "avô bêbado" eu dispensava.

    Uma criança e um idoso

    Uns desmarcam o que nunca esteve marcado, outros recusam-se a desmarcar o que nunca devia ter sido m

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    Há quem diga que quando se chega à idade anciã, ao estuto de idoso, à imagem de avô, mais tarde ou mais cedo nos reencontramos com a criança que há em nós. Quem dedica parte do seu tempo a cuidar dos idosos também muitas vezes apresenta o lugar-comum de que a velhice é uma segunda infância.

    A criança e o idoso partilham, nos seus piores dias uma teimosia injustificada de mão dada com a rabujice proporcionalmente inversa à sua paciência. Ambos querem o que querem agora e não daqui a dois minutos. E sabem muito bem o que querem e para quê. Só não sabem justificar quando são confrontados com um possível comportamento avesso ao que seria de esperar de alguém com plena racionalidade.

    Depois de ficar a achar que este texto é sobre idosos e crianças, vou agora encaminhá-lo ao objetivo do texto: transpor esta pequena divagação para a nossa criança e idoso do sistema partidário português.

    E porquê? Porque encaixa perfeitamente no que aconteceu a semana passada e ainda está para a acontecer.
    O Chega e o Partido Comunista, fazem as honras de vestir os papéis de criança e idoso, respetivamente. Um partido com cerca de 3 anos e outro com, alegadamente, quase 100, decidiram que deviam organizar os seus Conselhos e Congressos presenciais, nesta altura.

    Agora, que estamos a bater recordes diariamente, de infetados e mortos, ambos os partidos acharam por bem reunir vários militantes no mesmo espaço.
    Tal e qual uma escolha irrefletida de uma criança ou de um idoso, estes dois partidos com assento parlamentar, escolhem marimbar-se para os mortos e infetados e arrepiar caminho entre as mais básicas recomendações de combate à covid-19: se puder evitar ajuntamentos, evite.

    A criança (Chega), na realidade, ainda se está a perceber se realmente tinha alguma coisa organizada, ou se apenas quis fazer a figura de partido que responsavelmente cancelou o seu Conselho Nacional. Já vimos anteriormente que há alguém naquele partido que orquestra habilmente os meios de comunicação social a favor do Chega. Não são de todo descabidas as suspeitas de que apenas, mais uma vez, jogaram com uma situação séria, para sairem bem na fotografia. Só que para azar deles, os Bombeiros de Sintra, proprietários do local onde supostamente aconteceria o ajuntamento do Chega, decidiram intervir e revelar que nunca foram contactados para a realização de nenhum evento.

    Se já tinha ficado mal a ideia de que tinham criticado o Congresso do PCP, mas iam ao mesmo tempo realizar o seu próprio evento, ainda pior fica, sabermos que mentiram deliberadamente apenas para obterem atenção da comunicação social. Infelizmente, há público para tudo, e há de haver quem tenha achado muito bem este cancelamento do Conselho Nacional, ainda que haja esta hipótese de nunca ter sido sequer marcado.

    Já o nosso idoso, capricha mais na rabujice. Depois da irresponsabilidade do 1º de maio e do desplante do Avante, os nossos comunistas de bolso insistem em realizar o seu Congresso.
    Chegam mesmo os militantes e dirigentes do PCP a defender-se com argumentos patéticos como "os direitos políticos não estão suspensos", "com os milhares de pessoas que andam nos tranportes ninguém se preocupa" ou "querem cancelar a atividade política do PC desde a sua fundação".

    O PCP, com cerca de 100 anos, não consegue ainda lavar a ideologia da cara, e ver o que se passa à sua volta. Ver que isto não é sobre eles, que ninguém está a engendrar nenhum plano maquiavélico para que não possam juntar-se num pavilhão a repetir o que já dizem desde que foram fundados como se fosse ontem.
    Ver que é exatamente pelas pessoas que todos os dias, por necessidade, têm de se colocar em perigo para garantir o sustento da sua família, que eles deviam adiar o Congresso. Pois estas pessoas colocam-se em perigo porque precisam, eles estão a colocar-se em perigo por teimosia.

    Os nossos comunistas continuam a não perceber o que se passou no Avante e continuam a invocar outros eventos - Fórmula 1, Teatros, Concertos - para justificar a sua afronta ao sofrimento dos portugueses. Primeiro, não se justifica uma má ação com outra má ação. Segundo, os organizadores da Fórmula 1, dos Teatros e dos concertos, não foram eleitos pelos portugueses para terem uma palavra a dizer na governação do país.
    A gravidade entre uma empresa querer ignorar as recomendações de combate à pandemia não é sequer comparável à de um partido político fazer o mesmo. Porque não partilham das mesmas respnsabilidades, do mesmo papel, na sociedade. Mais caricato é que seja o partido comunista, que tanto combate a influência das empresas, a querer colocar-se no mesmo patamar que estas (Fossem mais espertos e tinham um excelente argumento para vilipendiar ainda mais os privados). Isto é tão simples, que só um velho senil, como o PCP não consegue compreender.

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    Os últimos dias têm sido muito produtivos em criação de notícias, artigos de opinião e reportagens em torno da nova era governativa que se iniciará nos Açores.
    O arquipélago terá, finalmente, a oportunidade de experienciar outro estilo de governação tendo mesmo expulsado os comunistas das lides parlamentares da região - recorde-se que até o PPM ficou à frente deles.

    Numa outra perspectiva, esta siuação tem gerado jogos de bastidores muito interessantes, para quem gosta. E é sobre eles que me debruço e acerca deles que terei de dar a mão à palmatória relativamente à qualidade de assessoria que o presidente do Chega hipoteticamente terá.

    Ainda a procissão ia a meio, e com procissão falo nas conversações entre CDS, PPM e PSD, e já muito se discorria acerca desta pseudo geringonça invertida, porque teria de contar com aprovações no parlamento regional, de outros partidos para que tivesse pernas para andar. Falou-se na IL, no Chega e até no PAN.

    Já esbracejavam os putativos arautos da liberdade à esquerda, dizendo que se ia governar com um partido de extrema direita. Como se aquilo que se tem passado no continente à 5 anos fosse muito melhor, com um Governo apoiado por partidos que celebram Che Guevara, Fidel Castro, Mao ou que põem em hipótese que a Coreia do Norte seja uma democracia.

    Não acho que sirva de justificação para nada, apontar o mal que outros fazem. Mas é impossível ficar-se calado com tamanha hipocrisia.

    Após o entendimento desta nova AD 2.0 , parece que se exigiu ao PSD regional que garantisse a aprovação dos orçamentos no parlamento regional. Para isso, o PSD tentou então conversar com a IL e com o Chega. E a partir da segunda conversa, com o partido de Ventura, é que o PSD nunca mais apanhou o fio à meada.

    O CH desde então tem jogado com mestria, e assim que terminou a conversa com o PSD, lançou para a comunicação social a ideia de que se tinha firmado um acordo que incluia a redução do número de deputados, a castração química e uma possível extensão do acordo às autárquicas.

    Fazendo lembrar o filme "Wag the Dog", o Chega marcou a agenda e minou a credibilidade do PSD. Costuma-se dizer para não lutarmos com porcos não é...?

    O PSD viu-se obrigado a desmentir essas informações, mas o dano estava feito. O primeiro a gritar ouve-se mais pois o segundo já não conta com todos os ouvintes na sala.

    Depois de dezenas de reacções nas redes, mais outra dezena de artigos de opinião e manchetes, Rui Rio veio tentar remediar o irremediável: a ideia de que fez um acordo com a extrema direita estava no ar.

    Após tudo isto seguiram-se, para além do desmentido, algumas defesas usando a tal questão da geringonça continental. E Rui Rio, que tem um registo patético nas redes sociais, acha boa ideia brincar com o tema.
    Ontem, mais uma vez, a assessoria de André Ventura, revelando muita perspicácia, esteve atenta ao que Rui Rio fazia e conseguiu gerar mais uma nódoa no peito do PSD.

    O líder dos laranjas faz um tweet infeliz, perguntando se há novidades acerca do "avanço do fascismo nos Açores" e, cerca de uma hora depois, André Ventura escreve outro tweet exatamente sobre o mesmo.

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    Resultado: Ventura puxa o PSD para junto de si, demonstrando consonância de pensamento e articulação conjunta na comunicação externa. Para quem leu ambos, fica com a ideia de que combinaram ou que são muito parecidos. De uma cajadada André Ventura conota o PSD com a extrema direita, para quem vê de um lado, e conota o Chega com o centro-direita, para quem vê do lado oposto.

    Em pouco dias, o partido de André Ventura, talvez por o terem subestimado, fez gato sapato da reputação do PSD e ainda se serviu da comunicação social como bem quis.

    Todo este lodo teria sido evitado de uma forma muito simples: PSD, CDS e PPM não precisavam de falar com ninguém para formar governo. Quem estava com eles estava do lado da direita, quem não estava colocava-se ao lado da esquerda. Este era o argumento único que devia ter sido utilizado, sem direito a conversações.


    Não Chega de loucura?

    Terão os partidos mais antigos feito assim tanto mal, para que os portugueses deem carta branca a todas as loucuras de um partido "anti-sistema"?

    Este fim de semana tivemos a convenção do Chega, amplamente acompanhada pela comunicação social, até demais se me perguntarem, tendo em conta que é um partido de 1 só deputado, e ontem ficámos a saber algumas das propostas mais chocantes, propostas pelos militantes.

    Veio a público uma das moções apresentadas na convenção, da autoria de Rui Roque, ex membro do PNR e do Aliança. A moção certamente deve ter sido apenas alterada visualmente, pois as propostas encaixam na perfeição no programa político do PNR.
    A  que mais está a dar de falar, é a proposta de retirar os ovários às mulheres que interrompam voluntariamente a gravidez, isto é, que abortem. Esta medida, para o Sr. Roque, deve ser aplicada se o aborto não for efetuado nas situações que este considera aceitáveis - violação, risco de vida para a mulher e malformações.

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    O Sr. Roque coloca todo o ónus do aborto na mulher, castigando-a pelo que fez. Sendo o Chega uma religião, que se fundou com religiosos evangélicos e outros, ou o Sr. Roque acredita que as mulheres engravidam por obra do espírito santo, ou é um pulha que quer apenas castigar mulheres.
    Caso contrário, teria toda a capacidade para propor algo do mesmo tom para o homem, co-responsável pela gravidez da mulher que aborta.
    Ser contra o aborto é uma posição com a qual se pode ou não concordar. Isto é so abjecto. Não é de um partido cujo líder se diz inspirado em Sá Carneiro.

    Depois de discutirem a pena de morte, serem anti-máscaras, proporem a castração química, agora temos a remoção forçada dos ovários às mulheres. O Chega tem um forte lobby interno afecto ou às agências funerárias ou ao Hannibal Lecter. Ou se mata ou se mutila.
    E mesmo com estas provas de que o partido está a conseguir reunir um grande grupo de gente bárbara, que só propõe violência nas suas mais variadas formas, o partido vai de vento em popa. Estão os portugueses a querer castigar tanto os partidos habituais, que cegaram e não conseguem ver o monstro que criam? Ou devemos temer a sociedade que temos e dexar a abstenção como está, cuidando que poderá estar pejada destes monstros?

    Se acha que o RSI é assim tão bom, despeça-se

    Este fim-de-semana surgiu nos media, a proposta do Chega de aumentar a fiscalização a quem recebe o Rendimento Social de Inserção (RSI) e obrigar os beneficiários a exercer serviço comunitário.
    Apesar da proposta não ser totalmente nova, no meu pouco tempo de observação nas redes sociais pude constatar dezenas de reacções. E são algo surpreendentes.

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    Não tinha a noção que tanta gente inveja o RSI ou considera que quem o recebe é um malandro que se quer aproveitar do sistema. É claro que esta proposta, vindo do partido que vem, é apenas um prolongamento natural da sua agenda de assimilação dos ciganos, utilizando um ideia de senso-comum de que todos eles recebem RSI, mantendo paralelamente os seus negócios de comércio ambulante.
    Não tenho conhecimento sobre estatísticas onde se tenha aferido tal comportamento, por parte desta comunidade em particular, no entanto fiquei surpreendido com a aparente positividade com que foi recebida a proposta. Ao que parece, através dos comentários que fui lendo, a minha "sondagem" pessoal, indica que há toda uma franja populacional que considera que se tem de fiscalizar mais estas pessoas que recebem centena e meia de euros do Estado, e exigir-lhes trabalho para merecerem o que recebem...


    Estas propostas claramente fazem vir ao de cima o portuguesinho mesquinho, que inveja sempre a galinha do vizinho, ainda que esta seja um pinto enfezado. Pergunto-me é, se há tanta gente que acha que receber o RSI é ter "boa vida", porque é que não se despedem e pedem-no também?

    Outro pormenor, ou pormaior se me perguntarem, é o facto de a proposta vir do partido cujo líder proclama deitar abaixo o sistema, destruir a corrupção e "fazer das tormentas boa esperança". Ora ligando estas suas vontades, por exemplo, a esta proposta, a coisa parece-me contraditória e algo caricata.

    Apresenta-se então o grande destruidor da corrupção, que faz tremer o PS e os interesses instalados... e começa pelos desempregados! Não vão estas pessoas, esta cambada de sanguessugas querer aproveitar-se do sistema para receber 200€, o salvador André já está no seu encalce.

    Os outros, os grandes, os Ricardos, os Joes e os Escárnias, ficam para o fim. Afinal até o povo concorda não é verdade? Não hão de dizer que somos mansos...

    Estar é (muito) diferente de fazer

    No dicionário Priberam, da Língua Portuguesa, a palavra "estar" tem 34 significados possíveis. Já a palavra "fazer", tem 40. Em nenhum deles, conseguimos encontrar a ligeira semelhança para que possamos associar estes dois verbos. Estar não é fazer. E fazer nunca será o mesmo que estar.

    Vem isto a propósito do pequeno fait-diver que tem entretido alguns políticos e eleitores que apreciam a politiquice. Começou com a crítica do deputado Moisés Ferreira (BE) ao líder do Chega, de faltar várias vezes às reuniões das comissões parlamentares, e veio ululando até hoje, em que já podemos encontrar algumas peças jornalísticas sobre as faltas dos deputados na Assembleia da República.

    Não é que seja uma novidade, os jornais apresentarem estes dados, mas gerou-se alguma atenção por vir tão próxima do acima referido acontecimento. Como era de esperar cada partido e cada político tem pegado nos dados publicados e recortado à sua maneira, para fazer a devida auto-promoção ou acérrimo ataque.

    O Bloco de Esquerda insistiu nas faltas do deputado do Chega. O Chega inventou faltas à líder do Bloco de Esquerda. A Iniciativa Liberal aproveitou para propagandear as zero faltas do seu único deputado, Cotrim de Figueiredo.

    Depois, isoladamente, nos outros partidos, cada deputado que tem uma ficha de presenças "imaculada", faz a sua publicidade, conotando essas presenças com árduo trabalho em prol da população.

    Surpreende que tanta gente se deixe levar por esta conversa de chacha e que continuemos a ter discussões políticas tão infantis. Se os deputados acham que a produtividade se mede pelo tempo que passam no Parlamento, é muito mau sinal. Se nos estão a tentar ludibriar, utilizando estes dados premeditamente mesmo sabendo que não significam nada, é muito mau sinal também.

    Encontramo-nos no ano de 2020, e já é mais que certo e sabido que trabalhar mais ou estar mais tempo no local de trabalho, não significa ser-se mais produtivo. Então porque é que há quem ache que isto não se aplica aos deputados da Nação?
    Eu, por exemplo, escrevo este texto no meu trabalho, quando devia estar a executar aquilo para o qual me pagam. Estou aqui, mas não estou a trabalhar.

    O André Ventura tem cerca de 2 minutos para falar por debate, e no entanto consegue fazer mais barulho que alguns deputados que dispõem de muito mais tempo ou que estão lá há muitos anos, alguma vez vão fazer durante toda a sua carreira. Para os objetivos do partido dele (que passam por dar nas vistas) está a ser muito produtivo.
    Já o Ferro Rodrigues, quando foi líder da bancada parlamentar do PS, conseguia ter muito tempo e não acrescentar nada aos debates, entediando toda a gente à sua volta. O Jerónimo de Sousa consegue, há décadas, dizer sempre o mesmo independentemente do tempo que dispõe. (umas vezes mais, outras vezes menos, consoante os resultados das eleições). A deputada Isabel Moreira pinta as unhas nos debates. A produtividade da presença de cada um, depende da vontade e capacidade que têm, não do tempo.

    O trabalho de um deputado vai muito mais além do que discutir para entretenimento popular. E o seu trabalho não mensurável pelo número de presenças ou ausências que constam na sua ficha mecanográfica.

    É redutor e insultuoso que nos queiram passar um atestado de tolice, sugerindo que o melhor deputado é o que está de corpo presente em todas as reuniões plenárias.

    Nós queremos é que apresentem trabalho, não a folha de presenças.

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