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The Pólis

Hoje deparei-me com duas informações de municípios diferentes, que me suscitaram questões que gostaria de ver respondidas. Infelizmente, ninguém as põe, ou por outra que as devia lançar não o faz. Como é de notar pelo título, refiro-me aos jornalistas.

Passou-me pelo facebook mais um anúncio de atividade de campanha da atual presidente da Câmara Municipal de Setúbal, à Câmara Municipal de Almada. Numa sexta-feira qualquer, à tarde, lá vai Maria Dores Meira passear a Almada para continuar a tentar recuperar a autarquia aos socialistas.

Isto levanta-me algumas questões, especialmente por ser Setúbal a minha terra.
Anda a presidente a receber um vencimento pago, também, mas especialmente, pelos sadinos para andar a fazer campanha em Almada? Não devia já ter suspenso o seu mandato? O seu vencimento?
E com que viatura faz estas deslocações a Almada? Sabemos todos que tem um motorista e carro pago com os nossos impostos, mas são para serviço em nome da Câmara Muncipal de Setúbal.

Gostava de obter resposta para estas questões, e sei que não estou errado ao considerar que deviam ser colocadas por jornalistas. Investigadas por jornalistas.

O que me leva à segunda informação, com que me cruzei: A Câmara Municipal do Seixal pagou 5mil euros para ter no jornal Semmais o presidente entrevistado, com perguntas de tanga, e umas quantas páginas de promoção ao trabalho da Câmara. Uma descarada propaganda eleitoralista com, paga com os impostos dos seixalenses, com a cumplicidade de um jornal.

Talvez isso explique, no geral, a ausência de escrutínio das autarquias neste distrito. A sobrevivência financeira dos jornais sobrepoem-se aos seus deveres enquanto bastiões de defesa do interesse público. É mais fácil ganhar 5000 euros e publicar o que a Câmara XPTO precisa, do que gastar 5000 a investigar o que fazem com o nosso dinheiro e arriscarem-se perder o valioso patrocínio dessa autarquia.

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Há uns meses já tinha aqui abordado a viciada relação entre as associações da minha cidade e a Câmara Municipal. (aqui e aqui) É um objetivo assumido da CDU, infiltrar-se nas associações e, ao mesmo tempo, sendo poder conseguir te-las todas no bolso. O vereador Rabaçal já há muitos anos tinha traçado este objetivo como essencial para cimentar o poder autárquico, perpetuando-o ad eternum se possível.

Chegamos a 2021, a novas eleições autárquicas e agora é colher os resultados. A fila de dirigentes associativos que prestam a sua vassalagem à campanha da CDU. A página de campanha do André Martins repleta de fotos de representantes de associações que declaram o seu apoio ao candidato.
Afinal de contas é o favorito a ganhar, acham eles, e estão não só a retribuir o apoio que lhes foi dado como a garantir que as injeções de dinheiro continuam no futuro.
É esta a triste realidade do movimento associativo setubalense. Organizações que deviam ser independentes, acabam numa profunda dependência da torneira autárquica. São comprados, gostam de ser comprados e até preferem porque agiliza muita coisa. Não têm trabalho a angariar financiamento para a associação ou a pedir donativos à sociedade civil, fazendo desta o verdadeio juiz acerca da sua utilidade pública. Optam pela via fácil, da subvenção garantida em troca de apoios partidários.

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O candidato da CDU à Câmara de Setúbal, oriundo dos Verdes (por fora, vermelhos por dentro), lançou há uns dias oficialmente a sua candidatura. 
Já não era novidade, até porque se tem dado mais um daqueles casos em que de repente o candidato está em todo o lado. André Martins é ainda presidente da Assembleia municipal, mas agora acompanha os membros do executivo para todo o lado. Uma reunião com moradores, uma inauguração de um poste, um café no café mais conhecido da cidade. O André, que nunca se via em lado nenhum, é agora um vai-a-todas!

Não obstante esse comportamento, que a ser rigoroso, é comum em muitas candidaturas de norte a sul do país, o que é caricato é o seu mote de campanha. A CDU tem trabalhado muito a mensagem que agora o candidato apresenta nos seus outdoors: "Continuar Setúbal"
Quem acompanhe a política setubalense, nota que é algo que está sempre no discurso dos membros do executivo, "só por desonestidade não se reconhece o trabalho feito"; "o resultado está à vista"; "os setubalenses notam a diferença". Entre outras tiradas, este mantra tem sido repetido à exaustão, porque uma coisa repetida muitas vezes se torna verdade. 
O objetivo é que paire no ar a ideia de que é unânime que todos os setubalenses reconhecem o excelente trabalho que a CDU tem feito.  E quem critica? Para quem critica, os membros do executivo municipal também têm a resposta mais estapafúrdia, mas que infelizmente encaixa, possível. "São pessoas que nunca fizeram nada pela cidade, e custa-lhes ver a obra feita".  
Quem engole a lenga-lenga da obra feita, é um cidadão de bem, que não engole é um inútil que nunca fez nada pela cidade. O argumento é profundamente desonesto, dado que qualquer Câmara Municipal, como é obvio tem muito mais ferramentas ao dispor para "fazer algo" pelo concelho que governa. Mas mais desonesto é a areia que nos atiram para os olhos. É que obras de embelezamento e alterações de ruas, é o que todas as autarquias fazem, é aliás o mínimo que qualquer autarquia pode fazer com os nossos impostos!

A verdade sobre o trabalho da CDU é este: Passados 20 anos, não temos dinheiro para arrendar casa, temos das águas mais caras do país, o IMI na taxa máxima e não há emprego nesta cidade, o que nos leva a todos os dias fazer 2/3 horas a caminho da capital. Continuam a haver bairros sociais, continuam a haver freguesias periféricas sem transportes, continuam a haver nessas freguesias zonas sem saneamento básico. 
Continua a ser inútil para um estudante do politécnico pensar em fazer vida em Setúbal. Termina o curso e tem de se ir embora, porque aqui só há emprego para jovens em restaurantes, cafés e alojamentos.
20 anos depois, a única coisa que a CDU tem para nos mostrar são edíficios turísticos renovados a peso de ouro, alterações nas vias de circulação e as mais de 1000 medalhas que distribuiu pelos habitantes - até o Joe Berardo recebeu uma. 

Pergunto: o que é que há para continuar aqui, André? A miséria? A falta de possibilidades de construir vida em Setúbal. Se é isso que quer continuar, fique quieto e passe a bola a outro. 

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Ao longo das últimas semanas têm sido levantados os véus acerca do que os partidos se preparam para fazer relativamente às autárquicas em Setúbal. Quando falo em partidos, cinjo-me exclusivamente aos tradicionais, porque as autárquicas são normalmente dominadas por eles.

Sem qualquer outra informação disponível que demonstre o contrários, estas não serão diferentes.

O PSD foi o primeiro a revelar que o candidato escolhido é o repetente Fernando Negrão. O juiz, ex-deputado, ex-ministro que poderia ter sido presidente da Assembleia da República na legislatura passada caso a Geringonça não rompesse com todas as convenções informais até então, volta a atacar no meu concelho.

Posso dizer que foi uma escolha surpreendente, pois o deputado Nuno Carvalho parecia-me o mais encaminhado para tal. Não que participe muito na vida da cidade mas, têm investido significativamente na sua carreira política. É um dos novos "deputados premium" no Facebook (um artigo que hei de escrever), ou seja paga para que os seus posts cheguem a mais gente. Uma nova dinâmica de democracia a que ainda não me habituei. Para além disso ainda é, alegadamente, vereador na Câmara Municipal de Setúbal - conseguiu o lugar apesar de ter levado o PSD ao pior resultado eleitoral em autárquicas, no concelho, desde há 40 anos.

Com a aposta em Fernando Negrão, e com o anúncio antecipado da aposta, o PSD demonstra que quer apostar forte e encurrala o CDS. Os centristas em Setúbal não têm opção senão negociar uma coligação, primeiro porque tem sido essa a conduta do seu presidente (um erro crasso em Lisboa), segundo porque não têm protagonistas à altura para contrabalancear com Fernando Negrão. A única pessoa que o poderia fazer era Nuno Magalhães, que é sabido ser desalinhado com as atuais estruturas apoiantes de Chicão.


Ao PS, cheirou-lhes a sangue. É o partido que está de melhor saúde em Portugal, que é Governo e que se contarmos apenas com autárquicas, vem com um balanço poderosíssimo na reconquista de câmaras aos comunistas.
Os socialistas empurram uma peso-pesada do partido: Ana Catarina Mendes.

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A política mais arguta do aparelho socialista, e uma das mais reconhecidas caras do Costismo.
Esta aposta pode ser observada de vários prismas:

- A saída de Maria Dores Meira (o sangue de que falei), é vista no PS com uma excelente oportunidade de recuperar a câmara e decidiram simplesmente não facilitar, daí enviarem uma superstar.

-
Enviar Ana Catarina Mendes para o plano autárquico poderá ser uma forma de afastar das lides aparelhistas e de uma futura liderança do PS. Algo que agradará e muito a Pedro Nuno Santos e a Fernando Medina. Estes dois serão os que mais desejarão que sua camarada vença as eleições em Setúbal.

-Apostar em Ana Catarina Mendes é uma situação win-win, se visto de um prisma em que se pretende alavancar a socialista: Se ganhar, ganha a câmara mais importante do distrito e torna-se num dos maiores "desfalques" efetuados aos bastiões comunistas. Seria um ganho importantíssimo para a imagem do PS.
Se perder, teve cobertura mediática extra (já tem imensa), de certeza absoluta que enfraquece a posição da CDU em Setúbal e ainda se consolida como protagonista chave no panorama nacional, e como mais uma potencial líder do Partido Socialista.


Já a CDU, deu um tiro no pé ao não seguir a indicação de Maria Dores Meira. A atual presidente, que já agora convém referir tinha dito no ínicio do mandato que seria o seu último e depois voltaria à sua vida particular normal, já está confirmada como candidata a Almada (Inês de Medeiros que se cuide!). Ainda que não saiba oficialmente, toda a gente sabe que Maria das Dores estava num processo de promoção da sua indicação e escolha para a suceder. Falo do vereador do Desporto e Juventude, Pedro Pina.
Todos o que acompanham a atividade política em Setúbal já tinham notado que o Vereador substituia a presidente em inúmeras situações, fazendo a representação que se poderia considerar pertencer ao âmbito de um vice-presidente.
No entanto o Partido Comunista não seguiu o que a presidente quis, e optou por um protagonista que tem tudo menos de protagonista. André Martins, o atual presidente da Assembleia Municipal, é uma nulidade política, muitas vezes gozado pelos seus parceiros e adversários, assim como pela população atenta ao que este senhor diz e faz. Só com muita dificuldade e um fervoroso apoio dos militantes comunistas, André Martins conseguirá evitar sucumbir à avalanche que o PS e o PSD se preparam para lançar.
André Martins tem o carisma de uma porta e o reconhecimento público de chefe dos escuteiros. Colocado junto de Ana Catarina Mendes e de Fernando Negrão, estes handicaps apenas serão realçados. Avizinham-se umas excelentes autárquicas para socialistas e coligação social-democrata/centristas... Com ajuda do excesso de confiança da CDU.

Não há Oposição política em Setúbal. O Partido Comunista, sob a fachada de coligação CDU, governa a cidade à vontade e à vontadinha. A população tem a capacidade de análise política de "um quarto sem serventia de cozinha", pedindo um empréstimo mal empregue a Lobo Antunes pela expressão, fruto dos planos educativos pobres em formação cívica ministrados nas nossas escolas, temos gente que mal se governa mas que se deixa governar - mas essa não é uma característica afeta apenas aos setubalenses.

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Maria Dores Meira (e fosse ela ou qualquer outro) põem e dispõem na cidade, planeando obras com data de inauguração junto a eleições, comprando associações, perdão, apoiando associações e mantendo a participação cívica em níveis q.b. ao gosto do comité. Aparecem onde lhes convém, mostram o que querem e falam para quem gosta de os ouvir, mas sempre com uma estratégia de cobertura propagandística bem focada e empenhada. As redes sociais, o site da Câmara e das Juntas e até o jornal da cidade, são hoje boletins informativos dos "melhoramentos" que o Executivo Municipal efetua na vida dos seus munícipes.
A presidente que consegue aparentar as maiores incoerências entre o que defende e o que aplica na sua vida pessoal e profissional, e ninguém parece importar-se com o assunto. Temos um Partido Comunista com lugares privativos à porta, que liga imediatamente para o reboque assim que algum cidadão lá deixa o carro - quem os diria tão intolerantes à partilha?  E uma Câmara que exibe os melhores topos de gama para transportar a nossa Rainha de Copas.
Enquanto isso, os sem-abrigo e os pedintes proliferam, os setubalenses vão sendo empurrados para fora do centro da cidade pois não têm poder de compra para pagar rendas excessivamente caras e, os jovens qualificados ou aceitam empregos que não correspondem à sua qualificação ou veêm-se obrigados a tentar a sua sorte na metrópole - a câmara até participou no benéfico processo de redução do preço dos passes para facilitar este êxodo profissional.
Isto vem acontecendo não apenas pelo desinteresse da população, mas também pela incapacidade e inexistência de uma Oposição e pelo fraquíssimo jornalismo disponível.

Os partidos que se querem como alternativa ao PCP, têm uma mísera presença nas redes sociais, galgando um outro tema que a Câmara deixa passar "para fora" e escrevendo uns textos na comunicação social - pouco porque as redacções têm medo de ser mal interpretadas. O Partido Socialista, como fica sempre em 2º nas eleições, usufrui desse estatuto de Esquerda B e sonha vir a trocar com  PCP, ainda para mais depois dos últimos resultados nas Autárquicas a nível distrital. O PSD olha para Setúbal apenas como um trampolim para outros voos. Não pretendem ser alternativa nenhuma mas apenas ter a visibilidade suficiente para garantir eleitos nas Legislativas. O melhor exemplo disso é Nuno Carvalho, que tentou, primeiro nas Europeias e depois nas Legislativas, sair rapidamente de Setúbal. Lá conseguiu e agora empenha-se, com posts pagos por ele, em manter o lugar no Parlamento com uma máscara do Vitória e a falar no Sado cada vez que tem uma câmera para si virada.
Os restantes, PAN, BE e CDS, com poucos recursos vão tentando ter alguma visibilidade, mas pouco mais fazem que aparecer nas Assembleias Municipais. Com registo de uma maior dificuldade para o CDS, por Setúbal ser um daqueles territórios onde a ignorância relativamente aquilo que significa ser de Direita representa. Aqui, democratas são fascistas e comunistas são democratas.
Na sua maioria, estes partidos não compostos por gente que faça da política a sua principal atividade. Aliando falta de empenho e disponibilidade, temos um apertivo delicioso para quem governa. Não incomodam.


O jornalismo regional também não ajuda. Não sei se o cenário será igual por todo o país, mas aqui jornalismo regional significa noticiar o que a Câmara Municipal diz e faz, de preferência com um adejtivo ou outro para poder vir a almejar um apoio ou uma preferência. Limitam-se a receber comunicados de imprensa oficiais e a entrevistar membros do executivo. Salpicam com uma outra entrevista ao PSD ou ao PS e julgam estar completo o seu trabalho. É o jornalismo mais enfadonho possível: nunca dão uma notícia ou uma reportagem com verdadeira novidade. Que resulte de investigação, que mostre perguntas incómodas.
Ora se o Executivo de tudo faz para manter os restantes partidos na penumbra, fornecendo o menor número de dados e documentos possível, prefere que os cidadãos se mantenham na ignorância continuando a não informar e transmitir decentemente as sessões públicas, e se o jornalismo não escrutina, como é que se faz Oposição nesta cidade?
Basta ver, a nível nacional, como decorrem as sessões parlamentares para perceber quão complicado pode ser fazer-se Oposição. Os Governos não respondem às questões ou respondem de forma irritantemente evasiva. Atrasam a entrega de dados para que os outros partidos não tenham tempo de os analisar devidamente e agora até parece que já nem querem debater. Se assim é a nível nacional, onde são gravados, escrutinados e difundidos por todo o país, imagine-se a nível concelhio. Sem qualquer holofote e com a certeza de que a maioria das pessoas não sabe quem são os membros do Executivo e aquilo que dizem ou fazem.


É um ciclo vicioso e viciado que perpetua quem está no poder e, em última análise só prejudica a população que continua a achar que tem a melhor liderança de Câmara possível, mesmo não sabendo o que faz ,o que fez e o que poderia ou deveria fazer. A Oposição só existe para cumprir protocolo, assim como os jornais. E Dores Meira, que já prepara o seu futuro profissional e a sucessão para a cadeira do poder em Setúbal, continua passear-se como uma grande reformadora e bajulada como excelente governante. 




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