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The Pólis

No dia 12 de dezembro do último ano, André Ventura, presidente do Chega(CH), escrevia no seu perfil pessoal, no Twitter :


"Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal. E eu não abandonarei os portugueses, por muitas armadilhas que me sejam colocadas no caminho."

Um estilo que agrada à vertente iurdesca do CH e que foi ridicularizada pelos seus antipatizantes, ao longo de comentários, reacções e artigos de opinião. Numa entrevista ao jornal Observador, Miguel Pinheiro perguntou-lhe mesmo "quando?" é que deus tinha falado com o dirigente do CH - pergunta que foi até elogiada por Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra.

Um mês depois eu tenho de admitir que dou parcialmente razão a André Ventura. Acho que escreveu aquela frase, à primeira vista disparatada, com o intuito de apelar aos evangélicos e a alguns católicos impressionáveis, mas acabou por ter um laivo de verdade.

O agora candidato a presidente da república, não tem nenhum missão confiada por deus. Ele tem é motivos para se sentir um deus.

Desde o ínicio da campanha eleitoral, em que fez questão de andar a viajar pelo país num momento completamente desaproriado, André Ventura tem sido seguido pelo seu batalhão de militantes, que estão já bastante documentados para nos podermos referir aos mesmos como fãs, pelos jornalistas e por uma legião de contestadores.

Quando digo que André Ventura se deve sentir como um deus, é por isto mesmo: é amado por uns, que o tratam como um deus do bem, dos "portugueses de bem", e odiado por outros que se dão ao trabalho de o seguir para mostrar o seu desagrado, acreditando ingenuamente que o estão a "combater". A combater o deus do mal, de todos os males, o diabo que invocou o fascismo adormecido.

É normal que quem goste de Ventura o trate muito muito bem e o veja como poço profundíssimo de virtudes. Não é normal que quem não goste de Ventura despenda do seu tempo para o destratar e acusá-lo das maiores barbaridades.

Os primeiros fazem o que é suposto, os segundos ajudam os primeiros e nem se apercebem. Todos ajudam André.
Não sei se, como diz o líder do CH, é o Bloco que está por detrás das manifestações anti-chega ou não. Mas sei de uma coisa: cada manifestação que realizam, acrescentam mais uns minutos ao tempo de antena daquele que querem combater. Acrescentam mais uns argumentos ao discurso de vitimização de Ventura, e mais uns apoiantes que se juntarão a ele nem que seja por detestarem a esquerda.

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Não se percebe qual é o objetivo dos protestantes. Talvez por serem na sua maioria miúdos estejam à espera que André Ventura fique muito desanimado e desista. Uma ideia que só na cabeça não sei de quem, poderá ter cabimento.

De qualquer das formas, continuam a obrigar a que os holofotes estejam sempre centrados no presidente do CH, e o que vemos é um candidato calado a ser ofendido. Não dará bom resultado para quem o pretende combater.  Um endeusamento é sempre um endeusamento. Colocar André Ventura no patamar de deus do Mal é dar-lhe uma importância que não tem, mas que toda a sua equipa tem mérito por a conseguir criar artificialmente. Nós, cidadãos e demais escrutinadores, temos o demérito de não saber decifrar esta estratégia, colocá-lo no seu lugar e obrigá-lo a jogar o jogo dos argumentos para defender aquilo que indefensavelmente defende.

Nisso Marcelo Rebelo de Sousa e Sérgio Sousa Pinto têm toda a razão quando dizem que não é a ameaçar proibir ou a chama-lo a ele e a todos os seus apoiantes de fascistas, que vão conseguir vence-lo.

Isso é lenha para a fogueira onde se aquecem os extremos.

Foi o tema de muitas conversas ontem, os trechos da intervenção de André Ventura em Portalegre, noticiados na comunicação social. O candidato do Chega (CH), tratou de deixar bem claro que estas eleições presidenciais servem para solidificar a implantação do partido e que o principal objetivo é melhorar o resultado das legislativas.

O pior veio a seguir, quando começou a disparar para todos os lados, de forma infantil e jocosa. Disse que o João Ferreira era um operário "beto", que o Presidente da República parecia um esqueleto, que o batom vermelho da Marisa Matias não é muito bom para a imagem de uma presidente e, finalmente, que o Jerónimo de Sousa é como "aquele avô bêbado que temos lá em casa".

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Não sei que avô é que o André Ventura tinha na sua família para achar que ter um avô bêbado em casa é algo generalizado na população portalegrense. Sei sim que o presidente do CH quer ser o Trump português e estes insultos fazem parte dessa tentativa de o ser.

Essa tentativa, não assumida (no debate presidencial com Ana Gomes, Ventura mostrou-se perplexo pela socialista ter dito que ele era fã de Trump), é confrangedora e até pateta. Quem não tenha o hábito de acompanhar as notícias via TV, acerca da política norte-americana, onde logicamente Donald Trump foi figura pincipal nos últimos quatro anos, talvez não note. Os gestos, (o indicador levantado com a palma da mão virada para a frente p.ex) enquanto fala, muito pouco naturais como é de esperar numa imitação amadora. A roupa, como o sobretudo escuro e comprido com uma gravata enorme no meio. As expressões, "o pior da história", "o mais grave de sempre", cheio adjetivos superlativos, que são também das coisas que mais nos fazem soar o alarme de imitação relativamente ao presidente americano. E por último, o estilo bully, de constante ataque e ofensa infantil aos adversários, com o objetivo de os ridicularizar, que se materializa na criação de alcunhas ou, por exemplo nos debates, com a recorrente interrupção e interpelação chamando-os de mentirosos.

Pego agora numa dessas alcunhas, a do "camarada de plástico", que acho que assenta muito melhor em André Ventura. O plástico a que me refiro não é o plástico útil que utilizamos no nosso dia-a-dia, é o plástico que imaginamos quando falamos na comida fast-food. A estratégia do CH e do seu presidente, é servir-nos política de entretenimento, uma política de plástico para consumo imediato. Ventura vai acabar por conseguir ter o seu lugar na história da política portuguesa, mas sem qualquer traço de autenticidade.

A direita que agora se encanta muito com este partido e este homem, porque confunde ofender a esquerda com combater a esquerda, anda atrás de um imitador, um ator, que se engana a ele e aos outros para existir. Este exercício pode agora ter resultados muito interessantes, ou até não porque as sondagens são o que são, mas a médio longo prazo, trará consequência enormes para o espaço político da direita.

Por andarem embevecidos com um estilo que personifica a caricatura que fazem da direita, os militantes desse espectro ideológico iram cunhar a caricatura como retrato fiel e nunca mais se verá a mesma como uma alternativa sólida, capaz de ocupar o poder em que seja apenas para castigar a esquerda.

A direita que se comporta como o "avô bêbado", destrói aos poucos a sua casa, numa ilusão de afronta aos poderes instalados e de combate ao socialismo. Não se apercebem que o maior favor que fazem à esquerda é exatamente este, o de se comportarem como a esquerda sempre os adjetivou.

"Lá fora", existem bons exemplos dos benefícios de uma direita decente, que se paute por valores morais e éticos, que não se limita a adjetivar negativamente os adversários, apresentando-se com soluções úteis, responsáveis e claras.
Na Alemanha receia-se o fim da liderança de uma internacionalmente consolidada estadista de direita, Angela Merkel (porque a própria não pretende voltar a recandidatar-se). Em Espanha, o Partido Popular, de Pablo Casado, continua a re-conquistar os espanhóis, tendo colocado no lugar a extrema-direita do Vox e fazendo oposição séria aos socialistas de Sanchéz e comunistas de Iglesias.

"Cá dentro", esta direita não está a saber comunicar, a saber vingar, a saber mostrar as diferenças entre ela e a direita trauliteira, entre ela e a esquerda oligarca.  Veremos o que nos reserva o futuro, mas a direita do "avô bêbado" eu dispensava.

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A campanha eleitoral para as presidenciais começou ontem (oficialmente) com o PCP a começar tão mal como terminou o ano 2020.

A organização de campanha de João Ferreira, realizou um comício no Coliseu do Porto. Centenas de pessoas num espaço fechado, um "ajuntamento", protagonizado mais uma vez por um partido com responsabilidades sobre as nossas vidas.

Experienciamos o momento mais crítico da crise sanitária no nosso país, com o número de infetados a aumentar a um ritmo de 10 mil casos por dia,  colocando em risco o colapso do sistema de saúde. Os comunistas, que o querem tanto defender, em vez de darem o exemplo, em vez de se solidarizarem com o esforço anunciado que teremos de fazer de novo de confinamento, optam por fazer uma demonstração de força.
Depois do Avante, depois do Congresso, o Partido Comunista Português volta a contribuir para que as pessoas achem que os políticos são uma cambada de privilegiados, irresponsáveis que apenas se interessam por eleições.

Há crianças e jovens que todos os dias têm aulas de janelas e portas abertas, porque cerca 30 pessoas numa sala de aula é demais. Há idosos que não contactam as famílias há meses, para não falar nos que estão internados e a quem apenas permitem visitas se for para se despedirem.
Pais com dificuldades para pagar as contas porque a oscilação dos números de infetados é também a oscilação de abertura e fecho dos seus sustentos.

Nada disto toca o coração dos comunistas, que investiram forte e feio nesta campanha presidencial, e que nos dizem, ao realizar mais um ajuntamento num momento crítico: "Vão-se lixar! Vão-se lixar que nós não orçamentámos 450 mil euros para agora cancelarmos as ações de campanha só porque vocês, as vossas famílias, os vossos amigos e conhecidos andam a sofrer, a endoidecer ou a morrer. Têm de ficar em casa? Problema vosso. Inscrevam-se num partido e venham disfrutar da liberdade de poder fazer tudo o que nos apetece, quando nos apetece, sem consequências."

Por 3 vezes o PCP já nos faltou ao respeito descaradamente. 3 vezes em que se dizem acima dos restantes portugueses, 3 vezes em que se estiveram a lixar para nós.
Este ano existem duas eleições: Presidenciais e Autárquicas. Nós, o povo, temos de de lhes ensinar que a merda que fazem tem consequências. Que sem nós não são ninguém. Antes de lutarem pelos poleiros, lutem por nos conquistar. Nas próximas eleições espero que tenhamos a capacidade de castigar e reeducar os comunistas. De lhes dar uma lição de humildade. Que o desprezo pelos mortos e infetados lhes custe muitos votos, é o meu desejo fora de horas para 2021.


PS: Também ontem foi noticiado que o candidato que realmente vem do povo, o candidato que menos dinheiro tem para gastar em campanha e que tem sido renegado pelo "sistema", teve a humanidade de cancelar as ações de campanha durante o período de confinamento dos portugueses. Este percebe que tem de ser solidário connosco.

Vitorino Silva

O candidato com tino

Numas eleições cada vez mais desprestigiadas como as Presidenciais, que lentamente se assemelham ao concurso Miss Mundo, em que os candidatos propõem tudo e nada, sendo que tudo são as propostas vagas que debitam cada vez que podem, e nada aquelas que sabem que estão fora do alcance de um presidente da República poder exectuar mas que decidem apresentar na mesma, há uma cara familiar que traz algum realismo à disputa.

É mais que sabido que o vencedor é Marcelo Rebelo de Sousa, e por isso mesmo não desce do estatuto de MVP. Está reservado, como se faz em culinária. É só não estragar o que já tem.

A cara familiar de que falo, é a de Vitorino Silva, mais conhecido como Tino de Rans. O candidato penafidelense consegue supreender sempre que volta a aparecer. Há 5 anos atrás surpreendeu no final, com um resultado muito acima do esperado. Surpeendeu tanto que o PCP apanhou um susto - etiveram a 30 mil votos de ser ultrapassados pelo calceteiro.

Este ano, aparece mais experiente, com um discurso muito mais assertivo e repleta de mensagens por entre as suas parábolas e analogias. A importância de Vitorino Silva nas eleições de 2021, duplicou pelo contexto político em que se insere. Estamos na época do pós-verdade, em que para ser basta parecer, e a maioria dos challengers são isso mesmo, vendedores de banha da cobra. Especialmente os que se dizem "representantes do povo".

É especificamente aí, que Vitorino e torna uma ameaça, pois só a sua presença desconstrói a narrativa deles. Se há um candidato que representa o povo ele é com certeza o cidadão que trabalha das 9 às 18, e que decide tentar a sua sorte como mais alta figura do Estado. O candidato que mais se assemelha ao povo é o que andou pelo país, no próprio carro, de norte a sul a recolher assinaturas, dormindo na casa de quem lhe oferecesse guarida.
E melhor que estas frases para o explicar, são as 9 mil assinaturas que conseguiu, muito mais que as suficientes para uma candidatura e muito mais que as que foram apresentadas pelos candidatos empurrados por alguns partidos.

Não há nem pode haver qualquer tipo de condescendência para com a candidatura de Tino de Rans. É um insulto se o houver. Por detrás daquele sorriso embutido num desmazelo próprio de quem trabalha no chão para nos dar chão, há hum homem intensamente esperançoso e perseverante, qualidades que só quem for desatento, não as reconhece como ingredientes principais de todos aqueles a quem chamam de "imortais". 

São esse sorriso e essas qualidades que armam Vitorino Silva e não o deixam desistir ou sequer desmotivar perante as muitas adversidades que se lhe têm apresentado.
Parte como o candidato com menor orçamento e como o mais subvalorizado pela opinião "que conta" para a comunicação social. Tão subvalorizado e menorizado que até há bem pouco tempo nem entrava nos questionários das empresas de sondagens. É assim que tratam os nossos.

Tão desprezado e ridicularizado que nenhuma televisão o convidou para os debates com os restantes convidados. Só após muita pressão, lá fizeram o obséquio de o incluir.
Para primeiro debate, talvez muitos tenham pensado que lhe calhou "a fava" - Vitorino Silva versus André Ventura. Quem ontem teve oportunidade de ver os trinta minutos de debate (pouquíssimo tempo, mas é assunto para outro texto), só pode ter visto que foi a André Ventura que calhou " fava".

O calceteiro, frente a frente com o doutorado, não só não se intimidou como se fartou de enviar mensagens subtis tanto para o seu adversário, como para outros candidatos e partidos.
Com um ar simpático, sotaque do norte e gesticulação de quem não está habituado a trabalhar de mãos vazias, Tino de Rans conseguiu atirar calhaus, sem receber troco, como:

"Eu concordo com André Ventura, devia haver menos deputados. Por exemplo, sempre que algum faltasse, tomava-se nota e ao fim de umas faltas, o número reduzia"

"Eu ouço dizer que o André falta muito, mas ele só falta porque ainda não tem ninguém para lhe ir marcar as presenças"

"A rua é onde começa a casa de toda a gente."

"Está a ser um debate porreiro. É assim que se deve fazer em democracia, sem interromper o outro."

"Eu tive mais votos que o Chega e o Iniciativa Liberal juntos"

Pelo meio, Vitorino Silva ainda conseguiu fazer uma parábola com uma mão cheia de pedras que apanhou em Peniche, falando nas pedras de todas as cores, e à resposta sobre se é de direita ou de esquerda respondeu que andar direito, "preciso de uma perna esquerda e de uma perna direita" a funcionar bem.
Não fossêmos nós algo preconceituosos, e muito mais pérolas conseguiríamos ouvir por cada intervenção pública do Tino. Infelizmente, tem muito poucas porque as TV´s e os jornais não se interessam por um calceteiro.
Ontem, um falso profeta do povo encontrou um político que realmente veio do povo e só não compreendeu as bocas que lhe foram mandadas porque se notou o desprezo que sentia a ouvir Vitorino Silva. É o chamado ouvir sem escutar. 

Incrivelmente, mesmo após todas as dificuldades conhecidas e reconhecidas no debate, da promoção da candidatura do penafidelense, o jornalista que moderou o debate conseguiu gerir o tempo de forma a que Vitorino tivesse ficado com menos tempo usado. Não basta ser prejudicado desde o primeiro dia, ainda tem de ouvir um jornalista dizer "Vitorino Silva ficou com menos tempo, mas também não pode ser milimétrico". Neste caso, pode e por tudo o que lhe têm feito deve. Pois se há quem demonstra que cada milimetro é aproveitado ao máximo, é o Vitorino!

Talvez por um milímetro desta vez os votos no Vitorino ou no Tino (como diz o candidato há quem queria votar num e há quem queira votar no outro) sejam suficientes para alcançar um lugar nos 5 primeiros.

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