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The Pólis

É uma questão de forma ou de conteúdo?

23.12.20 | Pólissiano

Nos últimos dias temo-nos deparado com as reacções, em catadupa, de indignação, choque e condenação da caçada que aconteceu na herdade da Torre Bela, na Azambuja.
Também eu fiquei chocado com tamanha frieza de espírito, de quem tira 500 vidas e no final congratula-se, fotografando e filmando os cadáveres.

Mas quanto mais a imagem circula e me aparece à frente, mais me faz pensar.
Estamos horrorizados com o quê, especificamente? Com a quantidade de animais mortos? Com o motivo fútil para os matar? Com a expressão facil do casal protagonista da fotografia que anda a rodar por todos os ecrãs?

Enquanto sociedade organizada e algo educada, temos consciência de que todos os dias são mortos milhares de animais, pelas mais diversas razões, e que somos consumidores dessas mortes. Seja no bife (vacas p.ex), seja nos laboratórios (macacos p.ex) ou simplesmente porque não suportamos a sua presença (ratos p.ex.). Acho que é seguro arriscar até nos milhões.

Então até que ponto não é hipócrita a nossa indignação com a matança na Torre Bela? Será que não estamos apenas chocados por nos terem mostrado? "Olhos que não veêm, coração que não sente", certo?

Mas não pode ser também apenas isso. Há imagens de animais mortos que não nos geram qualquer reacção de repugnação em cadeia.

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Porque é que a primeira imagem é chocante e a segunda não?

Acharemos nós que os pescadores não ficam felizes por conseguirem matar mil peixes num dia? É porque os peixes não vocalizam um som que se assemelhe à dor? O chapinhar em sufoco até morrer, não é suficiente?

E se a imagem da Herdade da Torre Bela, não tivesse um casal sorridente e andasse a circular pela comunicação social com o título "Caçadores abatem 500 animais para doar a instituições de combate à fome" ?

Não pretendo com isto fazer nenhum tipo de julgamento. Eu entendo que existe uma cadeia alimentar, que é cruel para as presas, e que somos os únicos predadores que podem ter noção disso. Para me confortar, prefiro pensar que na justificação para matar, considerando que se for para me alimentar, é justificado. Por divertimento, nem pensar.

Mas gostava de compreender, porque sei que estes fenómenos de indignação com animais mortos acontecem regularmente, se nos indignamos com a forma (caçadores a sorrir junto aos cadavéres) ou com o conteúdo ( 500 animais mortos em poucas horas). 

Será que estes fenómenos são, incoscientemente, uma forma de compensarmos todo o desprezo que damos a todos os restantes animais que são mortos em nome da nossa sociedade? Será aquele casal o bode expiatório ideal para limparmos a nossa consciência, ou andamos só sem nada para fazer?

Não desperdicem votos

17.12.20 | Pólissiano

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Esta é a mais recente patetice da deputada ex-PAN, eleita pelo círculo de Setúbal. Acredite-se ou não, esta personagem conseguiu roubar o lugar ao ex-líder parlamentar do CDS-PP.

Felizmente tem vindo a provar o quão má foi a escolha dos eleitores do distrito setubalense. Pode ser que para a próxima interpretem de forma mais séria, o facto de uma candidata não conhecer o programa do partido pelo qual concorre...

Eleger Cristina Rodrigues foi queimar um voto.

Bem-vindos ao mundo do LinkedIn

17.12.20 | Pólissiano

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Bem vindos ao mundo encantado do LinkedIn
onde há freelancers, managers e accounts
heróis do recrutamento, recém diplomados e muitos gurus
O mundo do empreendedorismo é no LinkedIn
onde todos os estágios são magia
desemprego, desemprego ele é
aqui uma grande alegria!

Sim, era uma tentativa de adaptação da música da Leopoldina para a realidade da rede social dos self-made men, LinkedIn,
Todas as redes sociais criam bolhas, mas esta é a que mais me arrepia. Há todo um ambiente de positividade podre, como se entrássemos num bairro onde todos nos sorriem mas nós notamos que são sorrisos amarelos.

Existem "influencers", que todos os dia publicam dicas para melhorar alguma coisa, desde a minha aparência ao modo como vejo a vida. Outros, wannabe influencers, enchem-lhes as caixas de comentários a agradecer e também eles a partilharem mais dicas! Isto, quando não carregam no pedal do narcisismo e acham que é boa ideia debitar toda a sua história, porque de algum modo se relaciona com o post (bocejo).

Toda a gente usa blasers e camisas nas fotos onde aparecem. O uniforme universal do sucesso pessoal e profissional.

Mas as publicações mais incríveis são as que se referem ao recrutamento e à procura de emprego. "Tu é que deves escolher o teu chefe!", perdão, queria dizer "líder!". É extasiante ler os episódios detalhados da High Quality Recruitment Manager da empresa All4Us, Sandra Ribeiro (inventei os nomes, calma) a descrever aquele dia em que respondeu a uma candidata, dizendo-lhe que não foi a seleccionada mas que não deve desistir, porque os sonhos devem ser perseguidos sob o mantra de que a esperança é a última a morrer. Quase a roçar aquelas desculpas para quando se pretende terminar um namoro e se diz "Não és tu sou eu. Não desistas do amor só porque te meti um par de palitos".
E prossegue a Sandra dizendo que obteve uma resposta incrível da candidata rejeitada, que agradeceu efusivamente a magnanimidade de quem a rejeitou mas acenou antes de abalar, e que jurou que aquele email lhe deu ânimo para continuar a ser rejeitada, porque agora ela sabe que é esse o caminho para o sucesso. A Sandra acrescenta ainda que no dia anterior à publicação do post, a candidata rejeitada lhe enviou mais um email, desta feita a dizer que conseguiu um estágio não remunerado e que só o conseguiu graças à rejeição da Sandra...
Claro que a nossa High Quality Recruitment Manager só termina o seu post com dicas sobre como rejeitar candidatos. Nunca ignorar e deixar mensagens de motivação são a chave!

Depois o habitual enxorrilho de comentários de situações semelhantes ou de mais gente que foi rejeitada mas adorou a experiência.

No LinkedIn procurar emprego é uma arte, um dom, que só alguns humanos possuem. Os outros têm de ler o livro que a Sandra Ribeiro escreveu sobre o tema, para conseguirem entender. Não basta tirar mestrado ou doutoramento meus meninos. Não basta saber línguas. Não, não... Têm de saber destacar-se!

Segundo os peritos, já ninguém lê currículos. Aliás, já ninguém quer saber da vossa formação! O que interessa é saber destacar-se entre a multidão. O vosso "value" está na diferença.
Vejam a Joaninha, tirou um mestrado na Nova mas está ali a dar no duro para conseguir o seu primeiro estágio não remunerado: fez um vídeo numa cadeira, onde dança e aponta para várias direções e, na ponta do dedo aparecem as suas séries favoritas intercaladas com uma ou outra informação sobre o seu percurso académico.
Vejam o Pedrinho que fez um CV digital, com o template do Instagram, já tem mil "aplausos" no LinkedIn e imensos comentários de recrutadores a deixarem emails de empresas a que não pertencem!

Ah, e o Manelito, ainda tem tanto para aprender! A publicar uma foto com o seu diploma, descrevendo-a "mais uma etapa concluída, agora estou oficialmente à procura de emprego!". Não não estás, Manelito. Estás à procura de uma experiência enriquecedora, produtiva, que te acrescente valor. Emprego é mais para a frente... Quando tiveres a idade do Filipe, CEO da Panipunda, que todos os dias partilha as suas melhores frases para inspirar Manelitos.

O LinkedIn podia também ter uma mascote, como a Leopoldina. E devia ser o burro, do Shrek.

O Bem Maior

Desde José Rodrigues dos Santos a Marisa Matias

10.12.20 | Pólissiano

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O conhecido pivô e escritor José Rodrigues dos Santos (JRS) foi, durante esta semana, o alvo preferencial dos justiceiros da linguagem, especialmente à esquerda. Numa entrevista que deu na Rtp, JRS cometeu o erro de não ser suficientemente explícito, de não fazer o gesto das aspas enquanto falava, e declarou:
“A certa altura, há alguém que diz: – Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?”, referindo-se claro, a uma das práticas mais horrendas do Holocausto.

Gerou-se o pânicos, e multiplicaram-se as partilhas, as condenações e as injúrias. Até deputados sentiram necessidade de expressar publicamente o seu repúdio pelo que tinha dito o escritor.

Afinal tínhamos durante anos recebido as notícias através de alguém que achava que as câmaras de gás foram uma forma humana de assassinar pessoas. Para JRS a sentença estava lida: é um apologista do nazismo dos tempos modernos.

É assim que funcionam as grandes intelectualidades da esquerda. Mas é mesmo, ou há uma intenção em não querer contextualizar?

José Rodrigues dos Santos viu-se obrigado a defender-se e, com rigor e seriedade, fê-lo no campo de batalha onde é possível sermos derrotados sem nos apercebermos: o Facebook.

Ao que parece, e na verdade era o mais lógico e sensato, pasme-se, ele afinal não estava a dar a sua opinião sobre as câmaras de gás! O que JRS, no excerto de vídeo que circulou um pouco por todo o lado, quis fazer foi explicar de forma simples o que dezenas de documentos e contactos que efetuou para sustentar o que escreve, lhe diziam acerca da prática e causa.

Como disse Michael Seufert na sua página de Twitter, não se conseguem convencer milhões de pessoas a seguir o que defendemos, se defendermos o mal. O que se fez há época foi aparentar fazer o bem - dar uma justificação humanista para as câmaras de gás - para conseguir colocar uma pessoa normal a perpetrar o mal.

Isto não é assim tão difícil de entender. Só que para os partidários da esquerda, para bloquistas e comunistas, não há vontade de entender, e os que entendem, sabem que não é conveniente assumi-lo.

Para algumas destas pessoas, a banalização do mal passa por banalizar o mal, quando na verdade se trata de ter gente banal a praticá-lo, em nome de um "Bem Maior". É mais confortável inventar escapatórias morais para quando fazemos algo que sabemos estar errado. Se quisermos ver a uma escala muito pequena, lembremo-nos das "mentiras piedosas".

O problema é que para as gentes do Bloco e do PCP, há também um "Bem Maior" a seguir, que é o de caricaturar, demonizar e ostracizar quem tenha um pensamento dissonante com aquilo que defendem. O caminho para esse Bem Maior não passa necessariamente pela verdade, e por isso é tão fácil ignorar factos em detrimento de um julgamento público, de apelo ao senso comum.

É até curioso que este diferendo tenha ocorrido no mesmo contexto temporal em que o slogan de campanha de Marisa Matias seja "Força Maior".
A Força Maior da Marisa passa por chegar onde tiver que chegar, independentemente da verdade ou da mentira.

É esta Força que a leva a dizer que é socialista, e mais tarde na televisão intitula-se de social-democrata.

É esta Força que a põe a jogar com meias verdades, como dizer que os hospitais privados recusaram tratar grávidas porque tinham covid - ela sabe que os hospitais privados até há bem pouco tempo, por ordem da DGS, não podiam tratar doentes covid. Fossem grávidas ou não.

É esta Força Maior que a impede de admitir que demora mais tempo, é mais caro e logisticamente ineficaz, estar a contratar mais médicos e enfermeiros a meio de uma pandemia, em vez de recorrer aos hospitais privados para tratar doentes - os hospitais públicos não vão aumentar de tamanho nem vão conseguir fazer as consultas e exames em atraso, por contratarem mais médicos e enfermeiros agora. A Força Maior impede Marisa Matias de admitir que tem preconceitos ideológicos com a iniciativa privada, e que esses preconceitos têm custado vidas.

A Força Maior da Marisa, é a mesma de toda a Esquerda: os fins justificam sempre os meios, sejam eles a mentira, a calúnia, a repressão ou a morte.

 

"Chicão" esteve bem, os manifestantes nem tanto

02.12.20 | Pólissiano

Ontem o presidente do CDS-PP decidiu ir ter com os manifestantes do movimento "a Pão e água", que se instalaram em frente à Assembleia da República há dias, e que alegadamente estão em greve de fome.

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Sobre o episódio não há, na minha opinião, muito a dizer. Um representante de um partido contactou com população descontente. Contado assim, qualquer pessoa poderá ter um de dois pensamentos imediatos: 1 - se os manifestantes queriam falar com alguém com responsabiliade política, tiveram ali uma oportunidade. O pólítico fez o que era suposto e foi ouvir as suas justas reclamações. 2 - o político quer aproveitar a manifestação para retirar dividendos políticos, "pontos" junto do eleitorado (ainda para mais vem do partido que aparece sempre mais prejudicado nas oraculares sondagens).

Eu tenho ambos, misturados, porque acho que é o mais sensato. É óbvio que qualque político que vá falar com a população, ainda para mais população descontente com o partido adversário, pretende ganhar pontos com isso. E não é igualmente óbvio que os políticos têm (idealmente) obrigação de nos ouvir?

Houve quem achasse muita graça, e até criticasse o líder do CDS, por ter tentado falar com os manifestantes e Ljubomir tê-lo aconselhado a parar de falar em partidos ou corria o risco de ser expulso.

Portanto, ignorando as intenções estratégicas das críticas de alguns dirigentes partidários, parece que há gente que prefere políticos que ganham pontos junto do eleitorado sem contactar com este.
E se formos atrás das sondagens, instrumento pelo qual nutro algum desprezo, quase que comprovamos esta tendência. É surpreendente que por exemplo, um partido como o PAN suba nas sondagens, sem nunca sairem dos gabinetes. Sem nunca contactarem com população. Fazendo política apenas para os lisboetas.
É surpreendente que Rui Rio e o PSD se aguentem há tanto tempo na melhor posição das sondagens, sem se mexerem, fazendo política no Twitter.
Em sentido contrário, o líder do CDS, que vai falar com os manifestantes, ou que tem percorrido o país em contacto com a população, é o mais prejudicado em sondagens.

Mas recuperando o foco no episódio da manifestação, reprovo o discurso mal preparado para os manifestantes, reprovo a notória falta de pragmatismo e deficiente assessoria do centrista, pois só isso justifica a indumentária tão desajustada ao momento - não te apresentas junto de gente cansada, frustrada e revoltada, de fatinho aprumado e esperas que alguém se identifique contigo.
Quanto isto, se me mencionarem, alinho nas críticas.

Já relativamente à atitude, só podemos reconhecer-lhe a coragem e saber ver que foi o único representante partidário a deslocar-se ao local para conversar com estes manifestantes. Mal ou bem, foi o mais próximo que estas pessoas estiveram do poder central, e não souberam aproveitar.

Ljubomir preferiu comportar-se como chefe da tribo e fazer uma exibição de poder alicerçado na sua notoriedade e nas dezenas de telemóveis que registaram o momento: "Meu querido, não sei qual é o teu partido, mas se voltas a falar em partidos convido-te a saires".

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Com a simpatia forçada que não deixou esconder a sua arrogância, Ljubomir e os manifestantes que ali se encontravam, deram mote aos partidos para brincarem com o assunto ao invés de discutirem os problemas que supostamente ali se reivindicavam.

Fica a dúvida sobre o que afinal querem aquelas pessoas que se manifestam em frente à Assembleia da República, queixando-se de que ninguém fala com eles, mas que desprezam e repudiam os partidos quando estes vão ao seu encontro.